Pensamentos provenientes da leitura: ‘Notas de Inverno sobre Impressões de Verão’ do Dostoiévski

Letícia Alves



— As reflexões são observações de dentro para fora; minhas imagens arbitrárias e meus devaneios, até que se exteriorizam. [cáp. III, às 12:12 na biblioteca com a Ana]

 

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— Que o que parece amargo seja ao menos agridoce. Tudo que tem uma porção de azedo, merece ser visto da perspectiva de criança que come mel. Que seja ao menos agridoce essa realidade nossa. [pág. 9, resolvi voltar às páginas]

 

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— Quero apenas para escrever hoje um simples vocabulário, palavras postas à mesa de todos, esboços ligeiros e sutis, impressões ordinariamente pessoais captadas em voo. Assim, leve e fresco, como quem acabou de acordar e viu a manhã ensolarada. E sabe? Escrevo correndo, mas nem sempre andei assim. Escrevo nessa euforia cintilante para trazer-lhes a visão do voo de pássaro – ou melhor: o repouso dele, que voa alto e rápido sobre o mar. Esses instantes são fugazes e cheios de poesia viva. Aqui reside o meu pensamento. O ar da minha escrita é o voo da palavra que se exterioriza em tudo que se permite ver. A palavra cheia de ouro esconde-se de mim; guardo no coração toda aquela que é simplesmente extraordinária na sua simplicitude sem fim. Percebo e recordo agora tudo isso. [pág. 12-14]

 

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— Toda a nossa vida, desde a primeira sagrada infância, se estabeleceu de acordo com os sonhos e desejos de outrem; nossas ambições foram colocadas em nós. Agora urge aprender qual o nosso próprio querer. Qual é a fórmula química da minha alma? O que me faz arder lindamente?

Há uma verdade, ainda inconsciente, sobre a qual a nossa existência deve ser despojada, mergulhada e ressuscitada. Nossa terra natal faz parte de nós, mas não nos forma inteiramente. Tudo para o qual eu tendi por voltar, é esse meu lar real. É difícil, no início do processo, exprimirmo-nos com clareza a nós próprios; o espelho, à primeira vista, está muito embaçado. Mas, o olhar contínuo, capta algo mais fundo do que o que está embaçado, soterrado e meramente apagado. Esse algo que penetra tão fundo me compõe, também. Esse exercício psíquico – olhar-me bem fundo para encontrar a pérola que criei e ainda está dentro da ostra – é um hábito estabelecido para a vida inteira. Nos breves momentos, enquanto toda essa gente dormita sobre a sua alma, eu procuro a minha vivamente. E isso também me compõe: essa procura incessante por mim mesma, mesmo sabendo eu que a minha fórmula é indefinida, as minha raízes são várias, as minhas ideias são infinitas, ainda que meu nome e corpo sejam apenas um. Toda a nossa vida, é um caminho para nós encontrarmos afinal. Raspei as tintas e pintei um novo quadro. Tudo isso sou eu: a tarde, a noite e a manhã. [pág. 16-17]

  • Autor: Hyun (em coreano significa: iluminado) (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 12 de fevereiro de 2025 10:34
  • Comentário do autor sobre o poema: Pela primeira vez não estou postando nenhuma poesia, em termos de estrutura, mesmo que usa linguagem poética, por vezes (não consigo me expressar e exprimir bem sem haha). Eu estava lendo esse livro sem gostar do enredo da história. Peguei-o na biblioteca porque o nome de chamou atenção e achei muito bonito. A capa era de uma pintura da era do Romantismo que me prendeu mais ainda. Sentei com uma amiga que iria estudar e li umas 40 páginas do livro e então desisti de ler e resolvi escrever. Engraçado como até coisas que parecem ser “tempo perdido” (legião urbana tocando agora na minha mente haha) ou inúteis, na verdade, se permitirmos, sempre podem ser reveladas de outra forma, até mesmo mais bonita, e isso não é sublime!? Isso nunca vai deixar de me surpreender e sempre vou adorar esses momentos de realização. Espero que gostem e que vejam alguma conectividade – já que está invisível – entre as três ideias. (O desenho acima foi feito pela minha irmã hihi na brincadeira, mas eu gostei)
  • Categoria: Espiritual
  • Visualizações: 5
  • Usuários favoritos deste poema: Lucas Guerreiro
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Comentários1

  • Lucas Guerreiro

    Caramba, meu, tive que ler umas duas ou três vezes pra entender! (e acho que continuo sem entender muito kkkkkk (e pensar que já tinha superado o meu analfabetismo funcional kkkk)) Na primeira leitura, achei que tivesses transcritos os pensamentos do titio Dostô e feito um tipo de anotação. Na segunda leitura, percebi que essas eram suas palavras inspiradas nas páginas que lia (mesmo lendo a primeira nota, demorei pra sacar). Esse estilo um tanto ensaístico é de uma graça e leveza que, encantadoras, conduzem o leitor a uma reflexão pelo ser da autora, seus desejos, ambições. Como o voo de um passarinho - pra usar a metáfora da autora. Não deixa de ser um tipo de escrita de si, como tá na moda dizer. Parabéns pelo texto, poeta!
    Abraços.

    • Letícia Alves

      Gostei da sinceridade de verdade. E não acho que a dificuldade você sentiu tenha só relação com uma suposta dificuldade para compreender esse poma em específico, mas sim com a forma solta e complicada que escrevi. Por isso eu gosto muito de explicar o que escrevo (ao mesmo tempo que não gosto, por outros fatores hihi). Mas, se quiser, pode me mandar as dúvidas no instagram, mesmo só prints das partes que você gostaria de saber \"o que eu quis dizer\" de fato que vou mandar áudios explicando (nesse caso, prefiro falar do que escrever e aqui áudios estão impossibilitados).

      Muito obrigada pelo elogio, abraços! (vou esperar mandares)


      (Olha acabei de reler o texto e vi alguns errinhos gramaticais que poderiam ter posto em causa o sentido do texto/reflexão interna, se quiser reler para veres se faz mais sentido, fica à vontade.)

      • Letícia Alves

        Aliás, acabei de publicar um dos do Rousseau que estava devendo. Muito obrigada por ter me lembrado dele, sinceramente! Se eu não tivesse terminado ele hoje (uma coisa muito bonita aconteceu) ele não teria ficado perfeito, mesmo que imperfeito, como ficou.

        Aqui está ele: https://meuladopoetico.com/mostrar-poema-50104



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