Se eu pudesse, viveria na bagunça
No meio da imundície
Da lama e da grama,
No meio da sujeira
De mosca e de varejeira
Entre vários restos em decomposição
A perfeição é uma nojeira.
O lado de fora age como um espelho
Refletindo o que vê dentro
Com mancha em vermelho
Coisa confusa jamais dita
Emoção presa jamais sentida
Tem razão mãe, sou maldita
Se eu pudesse, sairia da bagunça
Porém ela me prende
É reconfortante aqui
Me sinto melhor do que ali
Mais importante do que lá
Vem mais pra cá
Fique ao meu lado, assim diminui o estrago
Eu não posso limpar, este é meu lar
Estes vermes em mim estão a me ajudar
Eles me devoram aos poucos mas...
Teu alvoroço me esquenta
Aconchega minha carne fria
Eu sei que no final, meu pobre carnal estará igual aos meus anteriores
Secos, frios e sem vida
Ainda me lembro da sensação deles se mechendo nestes e me esquentando
Dói muito porém daria muito trabalho limpar
Eles sabem que eu gosto, por isso fazem.
Minha carne com vermes apodrece
E eu já estou coberta por eles
Estou podre há um tempo
Deixe-me decompor
Eu estou com
pavor.
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Autor:
Filha de Caim (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 21 de agosto de 2024 11:46
- Comentário do autor sobre o poema: A todos os que encontram conforto na sujeira, se permitem ser abraçados pela terra e pelos animais que nela residem. Este poema é dedicamos a nós, filhos da natureza e da tristeza. Abençoados sejam os filhos de Caim.
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 11
- Usuários favoritos deste poema: MrFred

Offline)
Comentários1
Reflexo de uma depressão, uma codependência com a tristeza e a confortabilidade de estar imerso num mundo distópico. Certo momento, quando ficamos demais presos nesse mundo, é apenas confortável demais pra tentar sair.
De qualquer forma, muito bem escrito, muito bem expressado.
Sou apaixonado na sua forma de expressar desconforto, tristeza e a sua forma de expressar a necessidade de validação.
Muito obrigada, MrFred! Fico realmente agradecida e imensamente lisonjeada pelas suas palavras e, principalmente, pelo conforto que sentes ao ler as linhas cheias de carência.
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