vic andrade

Chegada

Os dias caminham a passos tranquilos

indiferentes

A Rotina rosna

O café, que acalenta, sussurra

“Deixe de lado, está tudo bem

Por que não mais um gole?”

fiel cúmplice

O Sol entra sem bater, aconchega-se

aconchega-me

“Entre

tire os sapatos

açúcar ou adoçante?”

desejado penetra

O cigarro traz alguma emoção, pulmões se encarregam de distribuí-la

vilão adorado

 

Os dias continuam a caminhar

indiferentes

serenos

Rotina resmunga, aperta o passo

O café esfria, o Sol se envergonha

o cigarro apaga

“Ora, dona Rotina, como se atreve?”

O tempo nos é sagrado, admito

porém, todavia, contudo

ah

se bem que

talvez tenha razão

 

Os dias seguem seu ritmo

indiferentes

A Rotina ruge, apressa-se

exigente

“Vamos, o tempo nos é mais sagrado do que pensa”

A passos de Lenine,

me recuso, faço hora

Não valso por não saber

ou não ser possível valsar sozinho

O café amarga

frio

difícil de engolir

“Senhor Sol, queira se retirar”

cortinas fechadas

O cigarro me persegue, impregna-me com seu odor

dolorida tosse




Os dias passam

indiferentes

desanimados

como eu

 

Inércia marítima

Ressaca que puxa

álcool que atrai

seduz

afaga

“Por que não mais um gole?”

afoga

Arranha-me as úlceras

estapeia-me

retira-se

 

Ressaca que empurra

empurra para baixo

junto comigo

e minha inerte

condição humana

 

“Olá, dona Rotina

sinta-se em casa”

 

Comentários6

  • Javier Jimenez

    Poema carregado de melancolia... Gostei do estilo, parabéns

    • vic andrade

      Me parece um café morno, que ainda dá pra engolir, mas só. Hahaha
      Muito obrigada!

    • EDNA MARIA PESSOA

      Gostei muito do seu estilo. O seu olhar sobre a "rotina" do dia a dia, muito, muito poético.
      Abraços poéticos

      • vic andrade

        Que coisa gostosa de se ler, sinto até um calorzinho no peito. Obrigada mesmo!
        Abraços

      • José Altofe Queirolo

        Que leitura interessante, arrasta nossa atenção para um universo em espiral de eventos cotidianos mas significativos. Me senti dentro de um cartoon em preto e branco do Angeli. Parabéns por sua obra. Abs.

        • vic andrade

          Que honra essa comparação, gosto do Angeli. Muito obrigada pelo comentário. Abraços!

        • Shmuel

          Uma poeta nata. Interessante o comentário acima do poeta Jose Altofe Queirolo.
          A poesia lembra em alguns aspectos, a personagem icônica, Rê Bordosa.
          Parabéns, adorei!

          • vic andrade

            Nossa, realmente me sinto honrada então. Adoro a Rê Bordosa! Inclusive não tinha percebido essa possível semelhança, interessante como expor nossa escrita e receber comentários pode ser enriquecedor. Muito obrigada!

          • Artur Curadete

            se me permitir o elogio, as metáforas ficaram do caralho!

            • vic andrade

              Ô se permito, elogios com palavrões são os meus favoritos hahahah. Vêm do âmago, parece. Gosto disso. Muito obrigada, Artur!

            • MariaLandim

              Poetisa Vic

              Segundo minha opinião (rsrs)
              Há poesias que se assemelham à pintura abstrata.
              Cada olhar
              tem o seu prisma
              Para ler,
              interpretar.
              Pra sentir.
              E saem leituras ímpares.
              É bonito de se ler
              Ou ver.
              Parabéns

              • vic andrade

                Gostei do seu modo de enxergar, inclusive compactuo com ele. Muitas vezes o que pensamos não é o que escrevemos, e o que escrevemos não é o que é lido. Isso pode ser frustrante ou enriquecedor. Cabe a nós manejar (ou engolir). Obrigada pelo comentário, amada.



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