Artur Curadete

insatisfeito

insatisfeito

 

A incerteza na brancura dos olhos, as belezas naquele castanho fulguroso, a dilatação assustadoramente negra frente aos horrores atrozes dos olhares índicos harmoniosos.

Arrepiava-me ao lembrar-me dos meus próprios olhares; concepções profundamente belas e terríveis.

Talvez reinasse na beleza a injustiça mais violenta, aquela injustiça que bebe das lágrimas do espelho sujo, aquela injustiça que nos enche o peito por coisa nenhuma, aquela injustiça que faz franzir o cenho por também coisa nenhuma. Transborda-nos de amores cuspidos por almas incompletas e nós bebemo-nos de bom grado sem nem ao menos conseguir sentir o sabor.

A eternidade da incompletude me perturba incansavelmente, afoga-me com todas aquelas subtilezas das sensações que eu não sei sequer mais dizer se são prazerosas ou desprazerosas; apenas bebo-as, deleito-me nelas, e sempre termino insatisfeito. Gostaria de poder beber de mim próprio, talvez soubesse assim ao menos oque bebo, talvez preenchesse esse copo meio vazio, talvez dormisse enfim satisfeito.

Comentários2

  • Maria dorta

    Belo poema em sua forma de concretude. Empregas com segurança muitas metáforas e usas belas formas para expressar seu eu lírico. Aplausos!

  • Maria dorta

    Releio teu poema e sinto a tessitura usada,como alma torturada em busca de respostas...algo como a angústia de Baudelaire quando pedia a' própria alma para ficar quieta e ser mais tranquila. Meio surreal, mas me agrada!

    • Artur Curadete

      muito bem observado, de fato meus maiores momentos poéticos são os de angustia, talvez em propósito de acalmar a alma como desejava Baudelaire. Fico muito feliz que tenha dedicado um pequeno tempo precioso para ler meu texto com atenção, muito obrigado de coração mesmo, é uma honra!
      E fique a vontade para conhecer meus outros textos, deposito neles realmente pequenos pedaços da minha alma torturada, mas como observava Baudelaire, o mal também carrega sua beleza e suas doçuras.

      • Maria dorta

        Tens toda razão. A tristeza e a amargura muitas vezes nos empurram para a criação poética. Pelo menos,nos ajudam a criar alguma beleza!



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