Uma pequena insurreição contra a prudência, a contenção dos afetos e essa mania coletiva de sentir apenas o que não oferece riscos.
— “Ah, você tá indo com muita sede ao pote! Expectativas, expectativas, expectativas!”
Sempre aparece alguém querendo colocar freios nas minhas tentativas insanas de
intensidade, na minha maneira quase inconveniente de demonstrar esse amor desmedido
que sinto pela vida, pelas pessoas e por tudo aquilo que, de alguma maneira, me
atravessa. Parece até que sentir demais virou uma espécie de falta de educação. E, pelo
visto, demonstrar também exige autorização prévia.
Mas eu não quero freios. Nunca fui muito afeita a eles. Aliás, essa história de
moderação emocional nunca me convenceu muito.
Quero amar deliberadamente, com toda a imprudência que isso possa significar. Quero
demonstrar, dizer, transbordar. Quero oferecer flores sem precisar saber se haverá flores
de volta. Quero me permitir sentir sem transformar cada gesto numa negociação com o
futuro. Não sabia que, para demonstrar afeto, agora era necessário apresentar um
planejamento estratégico, calcular riscos e aguardar aprovação.
Não quero amar condicionada à possibilidade de ser correspondida, tampouco medir
minhas demonstrações pelo que o outro será capaz de sentir. O que você sente, o que
espera ou o que fará com o meu afeto pertence a você. Não pretendo transformar meu
coração numa repartição pública, distribuindo sentimentos somente mediante
reciprocidade comprovada.
O meu amor, esse desatino particular, pertence a mim.
Quero amar simplesmente. Sem garantias, sem contratos, sem essa necessidade absurda
de parecer razoável o tempo inteiro. Até porque, convenhamos, já existe gente demais
preocupada em ser sensata. Alguém precisa se encarregar de viver um pouco fora da
planilha.
A vida é uma só e, francamente, passa depressa demais para que eu desperdice sua
brevidade tentando administrar sentimentos, calcular demonstrações ou me censurar por
sentir além da conta. Há tanta coisa para experimentar, tanta gente para conhecer, tanto
afeto para oferecer. Não me parece sensato atravessar uma existência inteira preocupada
em não ser excessiva. Seria uma economia bastante questionável: poupar sentimentos
numa vida que não oferece reposição.
E, se há alguma imprudência nisso, que seja minha. Não pretendo passar a vida inteira
economizando sentimentos para evitar possíveis estragos. Até porque, no fim dascontas, ninguém sai daqui com um troféu por ter sentido pouco, amado com cautela e
mantido a compostura.
Eu não nasci para sentir pela metade só porque o mundo tem medo de excess
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Autor:
Tória (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 7 de novembro de 2026 18:50
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 2

Offline)
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