A avó e o vulcão

Jakeline Isabel

Talvez aquele fosse apenas um dia qualquer. Desses dias que eu não me lembro de ter vivido. Se naquele dia comi bife ou ovos. Que para saber se foi dia da semana ou domingo, preciso olhar no calendário. Mas não foi um dia qualquer. Era sexta-feira. E eu não me lembro de ter comido ovos ou bife. Mas lembro-me de saber que a avó morreria. Soube como quem sabe que o sol se põe todos os dias. Mesmo que escondido pelas nuvens. Pela fumaça. Pela dor. Pela cegueira dos olhos que não querem ver. Algum tempo depois, em outro dia que posso muito bem ter comido ovos, bife ou pedras. Não me lembro. Mas era sexta-feira também. O nono dia do segundo mês de um ano cinza. A avó morreu. 
A avó já era bem velha, e eu não a conheci jovem. Talvez esse tenha sido o grande problema entre nós duas. A distância entre o nosso nascimento abriu um precedente de distanciamento que nos perseguiu por toda a vida. Até a morte. Penso que se eu demorar muito a morrer, então tal distância continuará mesmo depois da morte. Se tivéssemos nos conhecido quando a avó ainda estava na juventude poderíamos ter sido amigas. Ou não. Mas desejei que sim. Preferia que a avó tivesse sido minha amiga em vez de minha avó. Preferia ter sido a sua melhor amiga do que apenas mais uma entre tantas netas. Talvez sem o distanciamento do tempo, tivéssemos sido grandes amigas.
A avó era uma mulher muito bonita. Olhos azuis como o mar da Grécia. Eu nunca vi o mar da Grécia. Mas vi os olhos da avó. Sentia até uma pitada de tristeza e inveja por não ter herdado aqueles olhos. O que me consola é que mais ninguém herdara os olhos de mar da Grécia. Aquele mar era da avó e somente dela. Eu herdei o porte físico, magra e alta. As pernas compridas. E o vulcão. Tenho certeza absoluta de que havia um vulcão no coração da avó. Assim como há no meu. Desejei tanto um dia ter conversado com a avó sobre isso. Se fossemos jovens amigas poderíamos juntas ter escrito um manual sobre como sobreviver aos próprios vulcões. E então deixaríamos o manual para nossas netas.
No dia em que a avó morreu, já não há visitava há algumas semanas. Dois vulcões quando próximos demais, às vezes se estranham. Duas mulheres, com um distanciamento de algumas décadas, não costumam conseguir se encontrar no mesmo tempo. Eu amava a avó. E nem me dei conta do quão grande era esse amor até que a avó morreu. Não poderemos mais ser amigas. Não poderemos mais conversar sobre vulcões. Não poderemos conversar mais sobre coisa alguma. Eu jamais vou ter a chance fazer a terrível pergunta que me assombrou por meses, anos, uma vida. Você me ama assim como eu sou? A necessidade de ser amada exatamente assim como sou, foi o grande problema de maior parte da minha vida. A avó não tinha a menor obrigação de me amar assim como eu sou. A avó nem sequer me conhecia o suficiente para tanto. 
A parte mais difícil, de perder alguém para a morte, talvez seja lembrar que também vou morrer um dia. Embora eu não tenha exatamente medo de morrer. Mas tenho medo do que acontece depois. E não gosto de imaginar o meu corpo abandonado depois que a morte chega e a vida vai embora. O corpo da avó era frio e duro. A pele como a das bonecas de material emborrachado que eu sonhava ganhar quando era uma criança. Lá, tocando a pele de boneca da avó morta, desejei voltar no tempo e nunca ter tocado uma boneca. O corpo da avó estava abandonado. A vida o havia abandonado. A alma e o espirito da avó tinham ido embora. Os olhos azuis, da cor do mar da Grécia, estavam fechados e nunca mais se abririam.
A avó foi uma mulher extremamente religiosa. Diferente de mim, que sou bastante desconfiada de qualquer coisa que se propunha a ocupar o papel de verdade universal. Eu não julgava a religiosidade da avó, mas a avó julgava a minha falta de religiosidade. E eu julgava esse julgamento. E isso foi o motivo de não termos nos falado nas últimas semanas de vida dela. Eu não a procurei, e a avó já não tinha o costume de procurar por mim. 
A avó fez escolhas difíceis em momentos difíceis da vida. E eu também. Mas nós duas costumávamos fazer escolhas difíceis bem diferentes. Em um dia que pode ter sido dia da semana ou domingo. Em que eu poderia ter comido só arroz e bebido as minhas lágrimas. Não me lembro de ter sido numa manhã ou tarde, mas era época em que o vulcão em meu coração estava bem ativo e em plena erupção. A avó me contou sobre a sua vida. Sobre a sua juventude. E me disse o quanto eu poderia escolher entre mais opções do que ela pôde. Eu não tive escolha – disse a avó. Foi aí que eu tive a certeza de que ela também carregava um vulcão no coração.
Lá, ao lado do caixão com o corpo abandonado da avó, a única escolha que eu tinha era controlar o meu vulcão. Meu coração doía tanto que se o deixasse entrar em erupção nenhuma pessoa ali sobreviveria. Sentia tudo. E tudo ao mesmo tempo. E doía. E sangrava. A lava quente se espalhava por dentro do meu corpo. Queria gritar. Tentava chorar em silêncio. Conversava com a avó e não tinha resposta. Silêncio. Algumas pessoas ao redor conversavam e sorriam. Desejava manda-los embora. Ali, não era lugar de sorrir. Quem não tivesse lágrimas, que não estivesse lá. Sentia ódio e tristeza. Sentia dor e medo. Sentia uma ânsia presa na garganta. Queria correr. Fugir. Abandonar o próprio corpo e tentar acompanhar a avó. Acabar com o distanciamento. Segurar a mão da alma da avó e ajudar seu espírito a seguir em frente. Receava que a avó se assustasse ao descobrir que não havia o sonhado descanso eterno após a morte. Chorei baixinho em silêncio ao lado do caixão.
Nas lembranças mais antigas que tenho da avó, recordo-me de ver uma mulher tão alta que só tinha uma visão das pernas compridas. Eu era criança menor que as pernas da avó. Conforme crescia, a avó diminuía. Morta parecia tão pequena. O tempo inverteu a vida. Enquanto uma crescia, a outra diminuía. Por um pouco mais de cinco décadas a avó existiu e eu não. As nossas linhas do tempo se cruzaram por um pouco mais de duas décadas. Agora, talvez eu vá existir por um pouco mais de cinco décadas sem que a avó exista. Eu nunca teria existido se a avó não tivesse existido antes. Será que um dia terei uma neta? Se tiver, tentarei lhe ensinar sobre os vulcões do coração. Sobre como sobreviver a eles.
A avó era a mãe da mãe. A mãe e o pai do pai morreram quando eu ainda era uma criança. Quando meu vulcão ainda era pequeno. Quando o meu coração ainda não se afogava na lava quente. Enquanto se despediam da avó, que era mãe da mãe, a mãe chorava. E eu pensava que perder a mãe devia ser ainda pior do que perder a avó. Imaginei que perder a mãe seria como tentar voltar para casa no fim do dia e a casa não estar mais lá. Tive pesadelos assim por toda a minha vida. Fui arrancada de meus pensamentos pelos murmúrios de choros de filhas sem mãe, netas sem avó e bisnetas sem bisavó. Mais alto do que os choros, o som da terra caindo sobre a madeira do caixão. Nem mesmo era uma boa madeira, a avó merecia ter ganhado um caixão melhor. A avó merecia ter vivido uma vida melhor. A avó merecia ter tido mais escolhas. A avó merecia ter tido o seu corpo cremado e as suas cinzas jogadas no mar da Grécia. O mar da Grécia tão azul como os olhos para sempre fechados.
Eu também morri um pouquinho naquele nono dia do segundo mês de um ano cinza. Como sempre morri um pouquinho quando alguém que eu amava morreu. Para acalmar o vulcão em meu coração, convenci-me de que sim: a avó me amou assim como eu sou. Eu nunca mais voltei para visitar o tumulo em que o corpo sem vida da avó foi deixado. A avó não está lá. Sempre que visitei a casa em que a avó viveu, pude senti-la. Às vezes, até ver. A culpa por não ter conversado sobre vulcões com a avó era bem maior que a saudade. Eu nunca fui muito de sentir saudade, era mais de sentir dor. Efeitos do meu vulcão tão grande.
Espero que um dia, antes de ficar velha ou de morrer, eu consiga conhecer o mar da Grécia. Azul como os olhos da avó. É certo que quando estiver lá o sol irá se por. Mesmo que atrás das nuvens. Mesmo que atrás da fumaça. Mesmo que os olhos não queiram ver. O sol irá se por no mar azul da Grécia. Enquanto o vulcão que herdei da avó ainda arder em meu coração. E mesmo depois.

  • Autor: Jakeline Isabel (Offline Offline)
  • Publicado: 2 de novembro de 2026 22:27
  • Comentário do autor sobre o poema: !!! Não leia se a morte for um tema sensível.
  • Categoria: Conto
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