O SHOW JÁ ACABOU

Morlock


Tema/Assunto para o Poema Mesclado:

Cada um de nós carrega dentro de si o seu próprio cemitério. Lá estão enterrados as pessoas que decepcionamos, os sonhos que traímos e aquelas versões de nós mesmos que nunca conseguiram nascer.





O SHOW JÁ ACABOU


Cada um coloca seu labirinto no bolso,
sem conferir, sem se importar,
sem questionar.
Ali, esquecemos os motivos das risadas perdidas,
as promessas que deixamos em prateleiras empoeiradas
e as versões de nós que se desfizeram,
como espectros que assombram na luz do meio-dia.
Às vezes, uma delas surge, com um sorriso mordaz.
Digo que é o que nos cabe —
a realidade prefere enigmas sem resposta.
E sigo, acelerando,
arrastando meus fantasmas ao teatro,
como quem leva um ingresso para um concerto
que já terminou antes de terminar.
por Morlock


O Sonho Acabou
Sinto como um soldado na trincheira,
Que vive em conflito interna corporis,
Pensa em fugir e fazer só besteira,
Com medo da vida que cega a íris.
Seus fantasmas arrastam correntes,
Nos corredores desta ópera maldita,
Perdidos no espaço-tempo, dementes,
Pra dar o peso de uma vida erudita.
Fica com medo do escuro em silêncio,
Porque a alma finge ser firme por fora
Mas por dentro me entrego e silencio.
E o sonho vira um pesadelo agora,
Nos jardins perdido, escuro, sentencio:
O show findou sem ver raiar a aurora.
- Jorge E. Leal


Trago na imaginação
das costelas da necrópole,
onde expiram meus ontens:
rostos a quem neguei redenção,
promessas de quem sangra sem pudor.
Sob a cláusula de um céu que desaba,
tu buscas o ser que eu não quero ser,
mas só encontras o fluxo hostil
de quem acordou o próprio mal-humor.
Deito meu corpo sobre essas lápides frias
antes que o mundo me perceba.
Beijo em vertigem todos
os que traí para fundar nosso último delírio.
Se o caos consome o cosmos lá fora,
aqui dentro o meu vazio é mais vasto:
queima este solo de mortos comigo,
e digo também o que nunca lembrei.
[ BellaSelva ]


Os calos do pensamento foram forjados a frio.
Engoli o olhar dos que desertei: agora vigiam por dentro,
fósforos acesos na argila que achei ser músculo.
Toco o impulso: não há sangue, só lodo.
Uma erosão lívida me come as bordas.
No oco do pulmão, versões que quebrei no escuro
arranham a lixa com unhas que nunca cresceram.
Amo o chão que me dissolve.
Os cactos viraram seixos pretos no fundo da alma.
Quando tento uma prece, o atrito das pedras mastiga a voz antes do ar.
O cinismo é a espinha vergando.
Caminho ereto com um relicário podre.
Até que descubro: a terra onde os enterrei já não me distingue do pó.
Não sou o coveiro.
Sou a vala comum que aprendeu a ter fome.
– Rebecca –


O show acabou, tirem a maquiagem,
que a plateia já conhece a podridão;
há quem venda a própria inocência
e ainda cobre juros pela absolvição.
Cavemos fundo, meus caros,
há tanta coisa gostosa de esconder;
uns enterram os próprios pecados,
outros deitam com eles para não os perder.
E que se fechem as cortinas,
ninguém aqui merece um pedestal;
são todos santos de vitrine,
com um cemitério particular.
[Lux Tenebris]


Há dias de farsa, de riso e comédia
Há noites de sombras, drama e terror
O bem e o mal representados na tragédia
O que salva a peça é o sacrifício do ator
**
De repente a cortina abre sem aviso
Sem roteiro, sem ensaio ou simulação
A estória se desenvolve no improviso
Expressando a fúria de cada emoção
**
Mas quando a cortina findar a jornada
E a luz do holofote deixar de brilhar
O show acabou e não restará mais nada
Nem gritos nem aplausos para comemorar
( Pacificador )