Fons Vitae

felicity for now

A bebida doce que me deste amargou os meus sentidos.
Quão doce se fez o fruto
antes que eu conhecesse o peso de sua colheita.
Inerte é a dor de quem é apunhalado
por mãos que ainda lhe sorriem.

Judas entregou-Lhe um beijo.

Havia pão repartido,
cálice compartilhado
e uma mesa à qual até o traidor foi admitido.

Conhecia o beijo antes que os lábios se movessem,
o preço antes que as moedas fossem contadas,
a negação antes que o galo anunciasse a manhã.
E, ainda assim, não impediu que se aproximassem.

O Amor que conhece a traição
e não deixa de caminhar em direção à cruz

E eu, que conheço o peso de ser traída,
escolho fazer-Te o mesmo.
Não preciso de trinta moedas.
Basta um desejo que não consagrei,
uma vontade à qual me recuso a morrer.
E chamo de pequena a minha infidelidade
porque o preço não pesa na minha mão,
embora tenha pesado sobre a Tua carne.

Quando contemplo o horizonte,
esqueço que foste Tu quem o estendeu.
Admiro a obra,
distraída do Artífice.
Contemplo os céus,
mas não me lembro de quem os sustenta.

Abandono a Fonte
e me debruço sobre cisternas rachadas,
cavadas pelas minhas próprias mãos,
como se a água pudesse permanecer
onde nunca houve capacidade de guardá-la.

Agarro-me aos prazeres que adormecem meu espírito,
porque temo o silêncio
em que ouvirei novamente o chamado da Tua voz.
Quero esquecer a distância de Ti
sem precisar percorrê-la de volta.
Quero o alívio sem o arrependimento,
o consolo sem a confissão,
a Tua mão estendida
sem precisar soltar aquilo que me afasta de Ti.

E assim me esvazio
tentando me preencher.
Meu corpo ressequido se estira à beira do abismo,
e a alma, que julgava conhecer os caminhos,
já não distingue o precipício da estrada.

Minhas últimas palavras,
antes que o orgulho me cale:
Oh, Senhor, vem me socorrer!
Já não consigo fingir
que sou capaz de salvar a mim mesma.

O barro não suja as Tuas vestes.
Tu conheces o pó de que fui formada
e, ainda assim, conheces cada dobra
da sujeira que escolhi acumular.
Minha iniquidade parece maior
quando exposta à Tua santidade.

Resgata-me.
Não me deixes fazer da minha culpa
um esconderijo mais confortável
que a Tua presença.
Rompe as correntes que forjei
na fornalha do meu próprio ego.
Desfaz o ferro que chamei de liberdade,
as algemas que enfeitei de orgulho,
os grilhões que beijei
como se fossem coroas.

Troca os trajes que teci
com as linhas da minha soberba.
Despe-me da justiça que costurei para mim,
pois nenhum fio meu
pode cobrir aquilo que somente a Tua graça redime.

Lava-me no rio de que fugi
à sombra do pecado.
Leva de mim o coração
que tantas vezes preferiu cisternas à Fonte
e faz brotar, onde só havia terra ressequida,
a vida que não sou capaz de produzir.

Não me deixes apenas lamentar a sede.
Ensina-me a beber!
Perdoa a traição que escolhi Te oferecer,
ainda que minha boca pronuncie Teu nome
enquanto minhas escolhas se afastam de Ti.

Dá-me a outra face,
constrangendo aquela que Te negou.
Abraça-me
e enlaça-me em Ti.
Grava minhas coordenadas nos Teus caminhos.
Dá-me da fonte de água viva,
pois cansei de beber daquilo que me aumenta a sede.

Que eu não Te procure somente
quando o deserto me ferir os pés,
mas também quando os jardins me distraírem de Ti.

Glória Te dou por Tua misericórdia,
que abre caminho para o meu perdão.

Graças Te dou por Tua bondade,
que não depende da minha constância.

Minha vida Te dou,
porque, tendo conhecido outros senhores,
já não encontro vida fora de Ti.

Sou Tua serva, filha, amiga, amada.
Meu Senhor, meu Pai, meu Rei:
a quem irei?
Se só Tu tens as palavras de vida eterna,

Ao meu princípio,
ao meu meio,
ao meu fim.

Àquele que continua sendo Deus.

Ao Amor.



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