O Último Refrão: Entre o Violoncelo e a Melodia de uma Solidão

Guilherme Rodrigues



Todos os dias, ao entardecer,
ela se sentava naquele mesmo lugar.
Um jardim repleto de lírios azuis,
à frente de uma lagoa onde os cisnes repousavam sob o luar.

O lugar silenciava quando o sol começava a desaparecer,
e as flores perdiam suas cores enquanto a noite começava a crescer.
Entre os cabelos ao vento e a quietude daquele momento,
ela preparava seu instrumento.

Um violoncelo vestido de cores e promessas,
de madeira, linhas amarelas, graves profundos e notas esbeltas;
melodias que floresciam em meio às aquarelas.

Quando a noite chegava, ela tocava.

E lá estava ele.

Vestido de azul, um lírio em sua mão,
olhos escuros, um sorriso que lhe aquecia o coração.
Nunca dizia muito, mas sempre se sentava
no banco à sua frente e, em silêncio, a escutava.

Ela nunca soube o motivo de suas visitas.

Talvez gostasse da música,
talvez gostasse daquele lugar,
ou talvez fosse justamente por ela
que todos os dias voltava para escutar.

Mas nunca ousou perguntar.

Ela o observava de relance entre uma nota e outra:
seus cabelos cacheados, seus olhos profundos,
seu sorriso de canto, seu jeito tão próprio.

E, quando a melodia terminava,
eternizava em sua mente aquele retrato.
Cada detalhe, cada olhar, cada silêncio,
como quem teme que, um dia,
a memória seja tudo o que restará.

Até que, certa tarde, ele não estava lá.

Ela esperou o sol desaparecer atrás das árvores,
viu as flores azuis perderem o brilho,
mas, por mais que procurasse entre as sombras, não o encontrou.

No dia seguinte, ela voltou.
E novamente não estava lá.

E continuou voltando,
dia após dia, na esperança de o reencontrar,
um desejo que crescia
mesmo sem motivos para acreditar.

Dias se transformaram em semanas,
semanas se perderam em meses,
e, sempre que o entardecer chegava,
ela retornava ao mesmo lugar.

Observava o banco,
e as lágrimas escorriam sem se anunciar.

Estava derrotada sem sequer saber que estava a lutar.

Mas não desistiu.

Pegou o arco e o traçou pelo instrumento,
manteve os olhos fechados, a cabeça baixa,
e deixou que a melodia trouxesse de volta
a imagem de sua chegada.

Sentia cada vibração, cada nota que nascia de suas mãos.
Seu corpo tremia, sua alma regozijava,
mas era o coração em pedaços
que a melodia atormentava.

Forçava um sorriso de canto enquanto as lágrimas a inundavam;
agudos cortavam o silêncio,
graves profundos a derrubavam.

Pausava constantemente para respirar,
recompor a compostura e, mesmo ferida, recomeçar.

Sua boca tremia, a melodia a abalava,
e as cordas do instrumento pareciam apertar,
como os fios sobre seu pescoço,
uma lembrança que se recusava libertar.

Seus cabelos dançavam sob o ar,
e, lentamente, ela se deixava levar.

Sentia as cores, a música, a entoação,
como se cada nota lhe arrancasse
um pedaço do coração.

O suspiro da vida escapava de seus pulmões,
enquanto ela se desfazia entre acordes e canções.

Morria e revivia em suas partituras.

Cada nota era uma lembrança,
cada pausa, uma saudade,
cada passada do arco, uma tentativa desesperada
de impedir que ele se perdesse na eternidade.

Até que, finalmente, compreendeu:

Cada nota carregava uma palavra que nunca pronunciou.
Cada melodia era uma carta que a coragem jamais entregou.

Ele não estava mais lá.

E ela não conseguia aceitar
o que havia deixado escapar:
aquilo que talvez pudesse ter sido,
um amor que nunca teve a chance de vivenciar.

E essa era a parte mais cruel:
não perder alguém que amava,
mas perder aquilo que nunca chegou a ter,
um amor que sequer pôde florescer.

Fechou os olhos e se deixou lamentar...

No dia seguinte, lá estava ele no jardim,
o mesmo que nunca deixou de visitar.

Sentou-se no mesmo banco de sempre,
trazendo consigo um lírio e suas lembranças
daquela que jamais deixou de amar.

Observou os lírios azuis, a lagoa, os cisnes
e o lugar onde ela costumava tocar.
Por um instante, fechou os olhos,
como se ainda pudesse escutar
aquela melodia que o tempo não conseguiu apagar.

Quando tornou a abri-los,
diante de si havia apenas o banco vazio.

Nenhum violoncelo.

Nenhuma nota.

Nenhum sorriso a lhe esperar.

Apenas o vento atravessando as flores,
como se tentasse lhe contar
aquilo que ele nunca pôde escutar.

Pois ela ainda estava ali.

Sentada à sua frente, com o arco entre as mãos,
tocava para ele, a quem tanto amava,
sem compreender por que as notas de sua canção
não o alcançavam.

Seus olhos procuravam os dele,
seu coração ainda insistia em chamar,
mas suas notas não atravessavam o silêncio,
jamais saíam do lugar.

Ela não sabia que havia partido,
nem que o tempo já não podia alcançá-la.

Continuava presa àquele último instante,
à espera de quem não podia mais encontrar.

E ele, sem saber que ela estava ali,
continuava voltando apenas para revivê-la e recordar
a mulher que a vida lhe permitiu conhecer,
mas que a morte não lhe deixou reencontrar.

Assim, todos os dias, ele voltava para sentir sua ausência,
enquanto ela retornava para buscar sua presença.

Dois corações, um mesmo lugar,
duas existências que insistiam em se encontrar.

Ela, além da vida, ainda esperava por ele.
Ele, em vida, ainda esperava por ela.

E entre os dois havia apenas um invisível véu,
intransponível ao tocar.

Ela tocava para que ele pudesse voltar.
Ele voltava para que pudesse ouvi-la tocar.

E assim permaneceram,
separados por aquilo que nenhum dos dois podia mudar:

Dois planos, uma mesma saudade,
um amor que nem a morte conseguiu terminar,
mas que nem mesmo a eternidade
parecia capaz de fazer se reencontrar.



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