Poema sobre coisas que não faço

Michel F.M.

Não peço 
intervenção alienígena 
com lanterna de celular,
nem faço coisa pior 
pedir intervenção 
militar.

não oro pra pneus,
nem chamo vírus mortal 
de gripezinha;

não faço piada 
com mais de 700 mil mortes 
numa pandemia,

nem peço pro Trump 
jogar uma bomba atômica 
no meu país. 

Não acredito em discursos 
vazios verborrágicos,
não me ajoelho diante 
da classe dominante.

Sou só mais um
trabalhador brasileiro, 
desclassificado,
lavorando de sol a sol
com tinta e papel.

_______________

[Michel F.M.]

  • Autor: Michel F.M. (Pseudónimo (Online Online)
  • Publicado: 26 de outubro de 2026 11:11
  • Comentário do autor sobre o poema: A composição "Poema sobre coisas que não faço" é uma obra de forte teor satírico, político e de protesto social. Através de uma estrutura de negações ("não peço", "não oro", "não faço"), o eu lírico constrói sua identidade por oposição aos comportamentos e discursos que marcaram a extrema-direita e o bolsonarismo no Brasil, especialmente durante e após o período da pandemia de COVID-19. Abaixo está uma análise detalhada dos principais aspectos do poema: 1. Contexto Histórico e Alusões Políticas - O poema é construído sobre referências muito específicas a eventos reais da história recente do Brasil: • "Intervenção alienígena com lanterna de celular" e "não oro pra pneus": Ironiza as manifestações antidemocráticas ocorridas após as eleições presidenciais de 2022, onde apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro foram flagrados sinalizando para o céu com celulares e se reunindo em torno de pneus em bloqueios de rodovias. • "Intervenção militar": Rejeita os pedidos de golpe de Estado que ecoavam nesses mesmos protestos. • "Gripezinha" e "700 mil mortes": Critica diretamente a negação da gravidade da pandemia de COVID-19 pelo governo da época e a falta de empatia com o número trágico de vítimas no país. • "Bomba atômica no meu país": Alude ao nacionalismo contraditório de parcelas que recorriam a lideranças estrangeiras (como o ex-presidente americano Donald Trump) em detrimento da própria soberania nacional. 2. A Construção da Identidade pela Negação - Nas quatro primeiras estrofes, o eu lírico define quem ele não é. Essa técnica delimita uma fronteira ética e ideológica clara. Ele recusa o fanatismo, o negacionismo científico, o autoritarismo e a subserviência ("não me ajoelho diante da classe dominante"). Ao rejeitar os "discursos vazios verborrágicos", o poema se posiciona contra a demagogia e a manipulação política. 3. A Virada Lírica: O Trabalhador e a Arte - Na última estrofe, o poema abandona a negação para afirmar, com orgulho e simplicidade, a identidade do autor: • "Sou só mais um trabalhador brasileiro": Há uma identificação com a coletividade e com a classe trabalhadora, a verdadeira base do país, que sofre as consequências das crises políticas. • "Desclassificado": Um termo que dialoga com a marginalização social ou com a recusa em se encaixar nas "classes" moldadas pelo sistema capitalista ou pela elite dominadora. • "Lavorando de sol a sol com tinta e papel": O uso do verbo "lavorar" (trabalhar a terra, cultivar) estende o conceito de esforço físico para o trabalho intelectual e artístico. A escrita (tinta e papel) é vista aqui como um ofício duro, honesto e de resistência, contrastando com o parasitismo da classe dominante mencionada anteriormente. 4. Estilo e Forma - • Linguagem direta: O poema utiliza uma linguagem acessível, coloquial e jornalística, típica da poesia marginal ou contemporânea de protesto, garantindo que a mensagem seja compreendida imediatamente. • Versos livres: A ausência de rimas rígidas ou métrica tradicional reforça o tom de desabafo e a crueza da realidade retratada. O texto funciona como um documento histórico em forma de verso, registrando o cansaço, a indignação e a resiliência do trabalhador-artista diante de um cenário de absurdo político.
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 5
  • Usuários favoritos deste poema: Michel F.M.
  • Em coleções: Antologia em pó.


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