ALGO NO AR

Ayalah Verônica Berg

 

Confesso:
começo pelo pior.
Nada promete.
Ainda assim,
o ar tece algo
que não sei nomear.
Chamo-lhe fio.
Chamo-lhe meu.
Escuta:
o escuro também tem ritmo.
 
Noite? Um hábito.
Sonho? Um vício lúcido.
Os retornos brigam
dentro de mim.
Tudo orbita
o que calo.
Sou a dona do conflito
e a ré que não se defende.
 
Falam de fome.
Falam de sexo.
A verdade não é mistério:
é uma porta
que se abre
para outra porta.
Sério?
Sorrio.
Meu sorriso tem dentes
de dúvida.
 
Quem não sonha, sonhará
que está acordado.
Quem espera, encontrará
o próprio atraso.
Eu espero
com a paciência de quem já perdeu.
É quase uma festa.
 
Escolho até o que me foge.
Sou livre:
condenada a inventar
o próximo gesto.
Habito o que me falta.
A profundidade é isto:
uma casa sem dentro.
 
No inferno que não cessa,
recuso a pose de vítima.
Empurro o dia.
Ele retorna.
Empurro outra vez.
Há um êxtase
em cair bem.
Há uma alegria
que parece um encanto.
 
Guardo, por malícia,
um pecado espumando:
esperar.
Não digo mais.
O escuro trabalha.
Toda alegria
é uma forma lenta
de elevação.
E o fim,
com sua beleza gasta,
aprende a leveza
de ser apenas recomeço.
 
 
Algo no ar 
 de Ayalah Verônica Berg 

 



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