Poesia Pandêmica

Michel F.M.


Teu sorriso esfacelou,
Tua esperança esfacelou,
Teu sonho esfacelou,
Ela não vai voltar.
-
Não foi o vírus que a matou,
Foi o desprezo pela vida,
De quem nem mesmo a conheceu.
-
Não conheceu os teus amores,
Não conheceu as tuas dores,
Os teus temperos e sabores,
A tua chama lutadora a flamejar.
-
Tua missão esfacelou,
Teu projeto esfacelou,
Tua presença esfacelou,
Ela não voltará.
-
Não foi o vírus que a matou,
Foi a tolice desmedida,
De quem negava o inegável.
-
Quem a matou não se deu conta,
Que a negligência contamina,
Não há vacina, pra estupidez.
-
Ele nem mesmo a conhecia
E suas inofensivas idas e vindas,
Ceifaram vidas, arruinaram vidas.
-
Não me recordo dos teus nomes,
Nomes demais pra recordar,
Nomes demais pra mencionar.
-
Mas conheci os teus amores,
Eu conheci as tuas dores,
Os teus temperos e sabores,
A tua chama, lutadora, a flamejar.
-
[Michel F.M.]


Ele estava abatido e sem forças para resistir
Deitado, prostrado e com o coração estilhaçado
Estava fraco demais para se levantar e reagir
**
A febre era tão alta que o fazia delirar
E no seu delírio o nome dela ele gritava
Mas ela estava longe demais para escutar
**
Trouxeram um médico e este o examinou
E em poucos minutos chegou à conclusão
Pobre homem, o que o destino te reservou?
Tu foste contaminado pelo vírus da paixão
**
Não há nada a fazer diante da situação
Por mais que tenha avançado a medicina
Não existe tratamento e nem medicação
Pro vírus da paixão não existe uma vacina
( Pacificador )


Poesia Pandêmica
O mundo trancou-se por dentro,
a chave girou no vazio,
e o medo mudou o epicentro
de um tempo que contraiu.
x
Janelas viraram esquinas,
as telas, o único abraço,
enquanto nas ruas vizinhas
o silêncio ocupava o espaço.
x
Sorrisos cobertos de pano,
olhares que buscam a cura,
o luto de um século insano
grafado na arquitetura.
x
A vida virou estatística,
a pressa perdeu o sentido,
e a mente, num surto de mística,
chorou pelo chão dividido.
x
Mas mesmo na sombra mais densa,
onde o ar parecia faltar,
a arte virou resistência,
forçando o pulmão a cantar.
x
Poesia que nasce do isolamento,
não limpa a poeira do chão,
mas traduz o sutil sentimento
de ainda ter um coração.
Vilma Oliveira


Taberna do Sol Poente
A trilha da dor não é eterna,
E me formei com diplomas...
Meu Deus! — naquela taberna!
Mas lá é a ruína dos axiomas.
É o sonho no barraco grande,
Lá no bangalô luz vermelha.
Chapa quente, não abrande!
No mar da vida, uma centelha.
O copo transborda o passado,
Brilho que o farol desgoverna,
E o vento já sussurra o recado:
Lã que ri atrás da porta interna,
Sumiu a noctívaga do pecado,
Pois o tempo se foi na caverna.
- Dodge Leal


Muitos partiram da negligência
Muitos sofreram só de observar
Outros surtaram de tanto medo
O pânico e a ansiedade se tornaram comuns
A respiração que é algo fundamental
Passou a ser tão prejudicial
Precisando cobrir nossos rostos com máscaras
Para sobreviver a este tempo infernal.
E quem em seus ventres traziam
Novos seres viventes
O medo abatia por ter que tirar
Do lugar mais seguro
Um ser tão frágil para enfrentar esse tempo horrível de tanta agonia.
Enquanto muitos sofriam
Outros tiravam sarro e ainda riam
Seres infernais
Que ainda vão pagar
Por todos aqueles
Que não partiram em paz.

  • Autores: Michel F.M. (Pseudónimo, Pacificador, Vilma Oliveira , Jorge E. Leal, Julian Lael, Dodge Leal, Samara A. Ferreira
  • Visível: Todos os versos
  • Publicado: 24 de outubro de 2026 15:14
  • Limite: 15 estrofes
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  • Comentário do autor sobre o poema: O poema "Poesia Pandêmica" é uma obra de forte teor lírico e social que expressa a dor, o luto e a indignação diante das perdas humanas durante uma crise sanitária (implicitamente a pandemia de COVID-19). A composição utiliza a tragédia individual como um espelho de um colapso coletivo, dividindo-se entre a dor da perda e a denúncia da negligência. Abaixo, apresento uma análise detalhada dos principais aspectos do poema: 1. Estrutura e Ritmo: A Repetição do Trauma - • Anáforas e Paralelismos: O poema faz uso constante da repetição de estruturas (anáforas) para construir um ritmo lamentoso e insistente. Expressões como "Teu sorriso esfacelou", "Tua esperança esfacelou" e "Teu sonho esfacelou" mimetizam o efeito de desabamento em cadeia que a morte provoca na vida de quem fica. • O Eco da Destruição: O verbo "esfacelou", repetido exaustivamente, carrega uma violência física e emocional. Não se trata apenas de morrer, mas de desintegrar-se, de quebrar em pedaços irremediavelmente. 2. Temática Central: O Vírus versus a Ação Humana - O cerne do poema reside na transferência da culpa biológica para a responsabilidade social e política. • A Verdadeira Causa da Morte: O eu lírico afirma categoricamente: "Não foi o vírus que a matou". O patógeno é colocado em segundo plano. Os verdadeiros culpados são entidades morais e comportamentais: o desprezo pela vida, a tolice desmedida e a negligência. • A Crítica à Ignorância: O poema atinge seu ápice crítico nos versos "Não há vacina, pra estupidez". Aqui, o autor faz um paralelo direto com a ciência: enquanto a medicina desenvolveu imunizantes para o vírus, a sociedade permanece indefesa contra o negacionismo ("quem negava o inegável") e a falta de empatia. 3. O Contraste entre o "Ele" (O Opressor/Negacionista) e o "Eu" (A Empatia) - Existe uma clara divisão de perspectivas em relação à vítima (que representa todas as vítimas): • O Distanciamento de Quem Mata: A figura opressora ("de quem nem mesmo a conheceu", "ele") é caracterizada pelo anonimato e pela indiferença. Suas "inofensivas idas e vindas" (uma provável alusão ao desrespeito ao isolamento social ou ao deboche das medidas de segurança) geram consequências fatais. • A Proximidade de Quem Chora: Em contrapartida, o eu lírico, mesmo admitindo que são "nomes demais pra recordar", assume uma postura de profunda conexão humana. Ele proclama: "Eu conheci as tuas dores, os teus temperos e sabores". Essa sinestesia humaniza a estatística. A vítima deixa de ser um número e volta a ser um indivíduo com história, afetos e uma "chama lutadora". 4. Tom e Evolução Emocional - O poema transita do desespero absoluto (a certeza matemática de que "ela não vai voltar") para a indignação revoltada (a denúncia da estupidez) e, finalmente, encerra-se em um tom de homenagem e resistência. Ao repetir a estrofe sobre os amores, dores e a "chama lutadora" no final, o poema escolhe não terminar na morte, mas sim na preservação da memória e da dignidade daqueles que partiram.
  • Categoria: Reflexão
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  • Em coleções: Zumbido Coletivo.