A MELHOR MÁSCARA É A QUE MORDE

Ayalah Verônica Berg

 

Você me quer bela.
Eu aceito o teu remédio.
A máscara aprendeu.
Defenda-a com dentes
e unhas que não são meus.
 
Atrás, a vontade congela:
planta sem janela,
sombra com adereços.
 
O tédio me esculpiu
uma segunda ilusão.
Ela respira melhor que eu.
Tem opiniões.
Tem até paciência.
 
Quero não, um ser autêntico.
O medo chega depois
e me aperta o pescoço.
 
Não temo tua feiura.
Ela é de fato simples.
Temo não existir
e não haver plateia
para a bruxa funesta.
 
Adoro o teu monstro
que destrói o mito da bela
que alguém inventou
para me enganar.
 
Quando me beija,
beija a cópia.
Eu adoro.
Há um torpor morno
em ser mentira bem-feita.
 
Nosso absurdo não exige grito. Exige postura.
Cair sem drama,
como quem desce degraus.
E olha os quadros.
Há êxtase nisso:
uma queda ensaiada.
 
No fim, a noite
cheira a fumaça e álcool.
O monstro cresce.
Eu quero ser amada
apesar da farsa.
 
 
A Melhor Máscara é a Que Morde 
 de Ayalah Verônica Berg 

 



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