Doce Prazer da Queda Livre

Michel F.M.

a felicidade 
não é real, 

bem como 
todos os outros 
sentimentos 
e emoções. 

ela é apenas 
uma percepção 
criada por nossa mente, 

através de um coquetel 
hormonal 
e uma poderosa dose 
de neurotransmissores, 

que ludibriam 
nossa consciência, 
nossas memórias 
e projeções. 

nada além de bioquímica. 

mas apesar da física
ser impiedosa,
nem todo corpo 
respeita a gravidade.

e te digo outra coisa, 
é absolutamente fabuloso 
estar entorpecido. 

ainda que provavelmente,
estejamos equivocados.

___________________

10/04/23
[Michel F.M. - Doce Prazer da Queda Livre - Trilogia Ensaio sobre a Distração - Vol. 1]

  • Autor: Michel F.M. (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 16 de outubro de 2026 09:43
  • Comentário do autor sobre o poema: O poema "Doce Prazer da Queda Livre" (de Michel F.M.) constrói um belo contraste entre o reducionismo científico e a necessidade humana de transcendência e ilusão. A obra divide-se claramente em dois momentos: a desconstrução biológica do sentimento e a entrega lírica ao "erro". Abaixo está uma análise detalhada dos principais eixos temáticos do poema: 1. A Desconstrução Materialista da Felicidade - Na primeira metade, o eu lírico adota uma postura racional, quase clínica. Ele define a felicidade não como um estado espiritual ou sublime, mas como um fenômeno estritamente físico e químico: • Mecanização do afeto: Palavras como "coquetel hormonal", "neurotransmissores" e "bioquímica" retiram o misticismo do sentimento. • A ilusão dos sentidos: O poema afirma que a biologia "ludibria nossa consciência". Sob essa ótica, a felicidade é uma distorção cognitiva, uma mentira contada pelo cérebro para mascarar a crueza da realidade. 2. A Física vs. A Rebeldia Humana - A virada do poema ocorre com a introdução de conceitos da física, usados como metáforas para o comportamento humano. • A Gravidade Inevitável: A física representa as regras duras do mundo real (a finitude, o sofrimento ou o pragmatismo). • A Resistência: Quando o poema diz que "nem todo corpo respeita a gravidade", ele sugere que o ser humano tem a capacidade única de desafiar a lógica. Apaixonar-se, sonhar ou buscar a alegria — mesmo sabendo que são construções efêmeras — é o equivalente poético a flutuar ou entrar em "queda livre" sem medo do impacto. 3. O Elogio ao Entorpecimento - O desfecho do texto abandona o tom cético e abraça o hedonismo e o sentimentalismo: • O erro consciente: O eu lírico assume que prefere estar "entorpecido" por essa química a viver na frieza da pura razão. • A aceitação do equívoco: A frase final ("ainda que provavelmente, estejamos equivocados") sela o tom do poema. Há uma melancolia lúdica em aceitar a mentira da felicidade, pois a ilusão colorida da mente é muito mais fascinante do que a verdade nua e crua do niilismo. Em resumo, o poema defende que, embora a ciência consiga explicar os mecanismos da felicidade, ela não é capaz de diminuir o valor da experiência humana. Saber que é apenas bioquímica não torna o processo menos "fabuloso".
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 10
  • Usuários favoritos deste poema: Michel F.M., pedrovik, Samara A. Ferreira, Poesia Abandonada
  • Em coleções: Doce Prazer da Queda Livre.


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