BIOGRAFIA DO COLAPSO

Morlock


Tema/Assunto para o Poema Mesclado:

As máscaras viram escudos defendidos com dentes e unhas, enquanto a identidade vegeta na penumbra. Quando a persona — esculpida pelo tédio — ganha vida própria, o desejo de ser autêntico esbarra no medo. Não tememos a nossa própria feiura. O terror real é desabar o cenário: recusamo-nos a ser o monstro que destrói o mito belo e confortável que o outro inventou sobre nós.

Tema criado por Ayalah Berg e Morlock.





BIOGRAFIA DO COLAPSO



Ajustei a calça tantas vezes que algo cresceu por dentro.
Na mesa de jantar, o diálogo flui leve sobre o clima,
enquanto, sob a toalha, meus dedos cravam as unhas na carne
para manter a postura erguida.
Você é tão romântico, ela sussurra com a delicadeza
de quem contempla uma obra de arte original.
E eu apenas sorrio,
porque o esforço para não derreter já virou a minha única biografia.
Há um conforto imenso na prisão que os outros decoram para nós.
Se eu esticar o braço e empurrar esta parede de papelão,
o que cai não é o teto:
é o espelho onde ela aprendeu a me amar.
E recuso o machado não por piedade do cenário,
mas pelo pavor mudo de ser eu mesmo
o único a testemunhar os escombros.
por Morlock


Passo pelos anos estagnado:
não cresço, apenas resisto,
e não abandono nada.
Não sofri mal de coisa imposta,
tudo foi de mim.
E não me dei bem comigo,
apesar da aparente paz.
A visão simplista,
baseada em um passado distorcido,
se estendia em um labirinto
de contos fabulosos.
Não quis assumir nada,
nem as broncas recebidas ou dadas.
Afastei-me para o lugar dos mornos,
isentei-me de mim.
Hoje moro bem aqui,
nos clichês, na ferida do vinil...
No imóvel geminado
vizinho ao arrependimento,
com vista para o covil.
Caminhando em vias
de dias perfeitamente monótonos.
Sem perspectiva que mude de
nota, rota, ou faixa.
-
(Queiroz, Francisco)


Lá no fundo do fundo do poço
Acolho a monotonia
Olho os detalhes e percebo cada pequena mudança
Não que eu tenha voltado a ver o mundo com os olhos de criança
Só aprendi a acolher as minhas dores
E ser feliz apesar dos horrores
Não é o cansaço ou medo da morte
Só aceito, daquilo que não tenho controle dependo da sorte
Não estou romantizando o sofrimento dizendo que dele saio mais forte
O que fortalece de verdade é o apesar de
Aquele motivo que nos faz continuar mesmo sabendo que vamos sofrer


A Janela da Alma
Pela janela enxergo a ruína do mundo,
O tédio destrói a persona inconsistente,
Leva embora o desejo pela vida, afundo,
Almas perdidas saracoteiam na mente.
Batem cabeça sem nada saber do rito,
Por se mostrarem inertes ante o querer,
Diante do medo que cala e destrói o grito,
E suas máscaras caem sem nada conter.
Ante a beta incerteza do homem virtual,
E sucedeu o auto lobo alfa onipresente,
Face aos zetas nativos digitais sem igual.
Em lugar do propósito da vida comercial,
Bravos boomers estabilizaram a nascente,
Testemunhando a independência pessoal.
- Jorge E. Leal


SUCUMBI AOS MEUS DESEJOS
MINHA VIDA DESMORONOU PELO TESÃO
AGORA MEUS INIMIGOS PREPARAM CORTEJOS
PRA FESTEJAR POR MEU CORPO ESTÁ EM UM CAIXÃO


O espelho, uma máscara,
Se encaixa no possível;
Precisa ser irreal,
Fugir do triste e risível...
E a imagem invisível,
Qual não se ver é preciso,
É o fundamento da vida
Que não redimiu Narciso.
Mas a visão desta máscara
Será talvez a verdade
Arás da qual se mascara
A nossa realidade?...
GMirabeau


Assim sendo, sou um nada,
Desfilo bêbado por ruas
Que sem calçamento
Estreito como um pensar
E deixar que a luz apenas flua,
Dando a quase incerteza
Que já não estamos aqui,
E, assim, não sou ninguém.
José Matheüs Mussi


Uma autobiografia incólume
Moldurado com Madeira antiga, envernizada
Foto límpida, perfeitamente calculada... uma pose atuada em sua melhor versão
Fotógrafo escolhido a dedo, nomeado popularmente: Uma Vida, um espírito.
Um convite enviado foi a uma criança, encomendado, um aviso prévio de despejo
Despejo de um modo, de uma foto...
Mudança repentina de classe divina
De anjo foi à sina.
Em um bailar desconcertante, uma criança errante
Aprendeu a dançar na valsa com uma postura elevada, ensaiada
Colocou sua máscara e assim foi para sua casa
O que antes era natural virou superficial
Com um medo infantil de um abandono real e fatal.
Aprendeu desde então a não dizer um "NÃO!"
Sorriu como sempre, aceitou descontente
Com suas roupas apertadas, não queria sair de casa, porém não podia deixar de ser amada e desejada
Cresceu com uma foto padronizada, guiada e forçada.
Infância... adolescência... Adultizada ou aniquilada?
Uma questão a ser monitorada... Mas afinal... ela nunca quis ter saído de casa!
Ao conhecer sua(e) amada(o), sua primeira(o) namorada(o), foi algo inventado, tramado
Tinha medo do abalo, do colapso
Um estado paralizado, congelado.
Em frete ao espelho, despido
Sentiu-se furtado, desconhecido pelo acaso
Não sabia quem era, estava pálido
Com os olhos vermelhos, cabelos bagunçados...
Deitado na sua cama, sonhou em ser guiado, pediu ao seu Deus um novo status
Sem fardos, nem cargos...
Somente voltar a ser aquela criança pura e feliz do passado.
-GabrielMaria


A quem interessar.
Vigi, fiquei inibido, pois acima só tem fera.
Cada poemão que e difícil para se responder.
Estão de parabéns todos os participantes.
Abraços a todos.
Apegaua


IREMOS DE MÃOS DADAS...
Iremos de mãos dadas por uma longa estrada...
Estamos presos a esta vida e não sabemos nada!
Cantaremos a esperança dum futuro bem melhor!
A realidade que nos afronta nos afasta do amor.
Eu vejo o paraíso nesses teus dois braços abertos!
Vejo os nossos corpos estendidos em um deserto
Vejo as nossas almas sobrevoando além do espaço
Vejo as nossas bocas que conversam num abraço!
Iremos viajar sem mapa, sem rumo e sem destino.
Vejo muitas coisas sem compreender o desatino
Vejo uma paisagem fenomenal através da janela
Estamos numa ilha plantando as rosas mais belas!
Nosso presente se nutre de suspiros adormecidos!
Nas horas de nostalgia de um dia amanhecido...
Nas noites de tempestade fugimos para um abrigo
Eu te gosto, tu me gostas, sejamos, pois bons amigos!


Máscara confortável, mas que corta.
Você quis ver o que eu vinha a nutrir.
Eu não temia o que havia atrás da porta.
Só o que cairia com seu papel de abrir.
(Guilherme Henrique Favaro)


Eles me chamaram de monstro, eu não sou um monstro, mas tenho um, não é por me sentir como um que tenho de me tornar um, e não é por me terem chamado que tenho acreditar que sou um, enquanto caminhava na praça fui chamado de palhaço, fiquei preocupado e fui a correr para casa, quando me olhei ao espelho tomei um susto, o meu rosto estava pintado, mas fiquei aliviado, o pincel não estava na minha mão, mas na daquele peão, que usava máscara, só acha bonito usar máscara quem a usa e já usou, eu cá acho feio esconder o rosto e pintar o dos outros apenas para poder chamá-lo por algo que eles sabem que ele não é, e que nunca se vai tornar, até porque tem quem não admita, que uma cara feia só é feia por esconder a verdadeira face com uma máscara bonita.
[de Luminoso, o Vitorioso]