Por pouco a vida não tombou,
se acabou seca como um deserto vermelho.
Um passo em vão, um segundo a menos,
e eu seria a sombra de quem nunca acordou.
Você só é você porque aqui está,
pois se aqui não estivesse,
você não seria você,
você seria outra pessoa.
Um estranho com os meus olhos, meu raro sorriso,
vagando por uma vida que não me coube,
sentindo a falta de quem nunca fui.
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Autor:
FILIPE4OLIVEIRA (
Offline) - Publicado: 14 de outubro de 2026 17:38
- Comentário do autor sobre o poema: Este poema toca em um dos sentimentos mais silenciosos e vertiginosos da experiência humana: a vertigem da contingência. Para mim, Geografia do Acaso fala sobre o peso invisível de estarmos vivos exatamente onde estamos e sobre a fragilidade assustadora que sustenta quem nós somos. A imagem inicial do “deserto vermelho” traz uma secura quase palpável, como se a vida tivesse passado a milímetros da aridez total, de simplesmente não florescer. Há uma sensação nítida de sobrevivência recente, daquele instante em que olhamos para trás e percebemos que um detalhe minúsculo, uma decisão qualquer, um tropeço evitado, um segundo a mais ou a menos poderia ter desmoronado tudo o que chamamos de "eu". O centro do poema expõe a ilusão de que a nossa identidade é sólida e independente do mundo. Nós gostamos de acreditar que somos uma essência intocável, mas a verdade é que somos esculpidos pelas nossas coordenadas. Estar aqui custou uma infinidade de "nãos", de caminhos fechados e de tragédias ou desvios que não aconteceram por pura coincidência. E o desfecho é onde a melancolia se torna mais profunda e bonita: “sentindo a falta de quem nunca fui”. Não é o luto por alguém que morreu, mas o luto por todas as versões nossas que ficaram pelo caminho, sufocadas pelo simples fato de termos escolhido (ou sido jogados em) uma direção só. No fim, Geografia do Acaso não soa apenas como um lamento, mas como um testemunho solene. É o espanto de quem sobreviveu ao próprio abismo e agora encara o espelho, consciente de que ser quem se é, não é algo predestinado, é algo construído pelo lugar onde se está.
- Categoria: Triste
- Visualizações: 4
- Usuários favoritos deste poema: Ayalah Verônica Berg

Offline)
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