Balões coloridos e aroma silvestre de esterco fresco

Michel F.M.

A vida é tão detestável e apaixonante.

Como alguém pode dizer 
que sabe alguma coisa?! 

Nenhum de nós pediu 
para estar aqui e agora que estamos,
ninguém quer ir embora. 

Tudo o que queremos é ficar. 

Quem sabe, talvez. 
Nunca tivemos noção 
do que queríamos e agora 
só queremos ser. 

Queremos estar.

Os joelhos voltam a ranger, 
a cabeça latejante e a escápula inflamada,
me presenteiam com outra noite gloriosa.

08/04/23
[Michel F.M. - Acumulador de Feitos Invisíveis - Trilogia Ensaio sobre a Distração - Vol. 1]

  • Autor: Michel F.M. (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 14 de outubro de 2026 05:10
  • Comentário do autor sobre o poema: Este poema apresenta uma forte carga reflexiva e existencialista, marcada por um tom agridoce que transita entre o desencanto e o apego profundo à vida. Ele explora as contradições da experiência humana através de um eu lírico que oscila entre a contemplação filosófica e a realidade dolorosa do corpo físico. Abaixo, divido a análise pelos principais eixos temáticos da obra: 1. A Dualidade da Existência (O Agridoce) - O poema abre com uma das contradições mais universais da humanidade: "A vida é tão detestável e apaixonante." O eu lírico reconhece o sofrimento inerente ao mundo, mas admite a incapacidade de não se apaixonar pela existência. • O título como metáfora: O título "Balões coloridos e aroma silvestre de esterco fresco" antecipa perfeitamente essa dualidade. Os "balões coloridos" representam a leveza, a infância, a beleza e a ilusão. Já o "aroma silvestre de esterco fresco" traz o leitor de volta à terra, ao lado cru, orgânico, por vezes desagradável, mas ainda assim vital e natural da realidade. 2. A Involuntariedade e o Instinto de Sobrevivência - A segunda estrofe aborda o absurdo da condição humana (ecoando o Existencialismo de Camus e Sartre): não escolhemos nascer, fomos jogados no mundo ("aqui e agora"). No entanto, apesar de não termos pedido por isso, desenvolvemos um apego desesperado pela vida: "ninguém quer ir embora. Tudo o que queremos é ficar." Há um contraste entre a falta de agência inicial (o nascimento) e o desejo absoluto de permanência (a sobrevivência). 3. Do "Querer" ao "Ser" (Evolução Espiritual ou de Maturidade) - A quarta e quinta estrofes mostram uma mudança de perspectiva sobre os desejos humanos: • Antes, havia a confusão do consumo ou das ambições humanas ("Nunca tivemos noção do que queríamos"). • Agora, o desejo se simplifica e se torna essencial: "só queremos ser. Queremos estar." • Essa transição reduz a vida ao seu estado mais puro: a presença consciente. Não se trata mais de conquistar ou ter, mas apenas de experimentar o fato de existir. 4. A Ironia e a Realidade do Corpo Cósmico - O desfecho do poema traz uma quebra irônica e realista. Depois de divagar sobre o "ser" e o "estar", o eu lírico é bruscamente puxado de volta para a sua realidade biológica: o envelhecimento e a dor. • Os joelhos voltam a ranger, a cabeça latejante e a escápula inflamada... • O uso da palavra "presenteiam" e a expressão "noite gloriosa" carregam uma ironia fina. A insônia provocada pela dor física é o "presente" da vida. • No entanto, dentro da lógica do próprio poema, até mesmo a dor física é uma prova irrefutável de que o eu lírico conseguiu o que queria nas estrofes anteriores: ele está vivo, ele está "sendo" e "estando", sentindo o peso da matéria. Resumo da Obra - O poema é um retrato honesto da maturidade ou da lucidez sobre a vida. Ele aceita que viver dói (física e emocionalmente) e que o mundo é incompreensível ("Como alguém pode dizer que sabe alguma coisa?!"), mas conclui que a beleza e o privilégio de "estar aqui" superam o incômodo do ranger dos joelhos.
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 5
  • Usuários favoritos deste poema: Michel F.M., Pedro Viegas
  • Em coleções: Acumulador de Feitos Invisíveis.


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