Eu vivo sempre no mundo da lua.
E não estou falando metaforicamente. Digo isso com a propriedade de quem provavelmente já ultrapassou a atmosfera terrestre umas trezentas vezes antes do café da manhã. Minha mente não conhece endereço fixo, não paga aluguel na realidade e, quando muito, aparece de visita para conferir se o corpo ainda está por aqui.
O problema é que eu nunca sei exatamente onde estou.
Às vezes, encontro-me perdida entre os anéis de Saturno, pensando em alguma frase que ouvi há cinco anos e que, por algum motivo absolutamente inexplicável, resolveu ressuscitar às três da tarde de uma terça-feira. Em outras ocasiões, estou a milhões de anos-luz da Terra, contemplando uma conversa que nunca aconteceu, inventando diálogos, ensaiando despedidas e construindo futuros inteiros com pessoas que sequer sabem que foram escaladas para o elenco da minha imaginação.
Minha cabeça é um lugar curioso. Há música tocando em algum canto, poemas inacabados espalhados pelo chão e sentimentos sem classificação orbitando ao redor de pensamentos que não levam a lugar algum. De vez em quando, uma ideia atravessa o espaço sideral, acende todas as estrelas e me obriga a abandonar qualquer atividade minimamente útil para escrever três linhas sobre a existência humana.
É um inferno muito bonito, devo admitir.
Na minha cabeça, tudo pode virar alguma coisa. Uma palavra atravessada transforma-se em tragédia grega. Uma despedida ganha a dimensão de um eclipse. Um coração partido deixa de ser apenas um coração partido e passa a ser uma catástrofe cósmica, com direito a meteoros, crateras e uma trilha sonora cuidadosamente selecionada para aumentar o estrago.
Tenho esse péssimo hábito de transformar os desastres da minha vida em histórias sem pé nem cabeça. Recolho os destroços, misturo com algumas metáforas, acrescento uma música triste e, quando percebo, aquilo que quase me destruiu já tem título, subtítulo e potencial para render umas boas páginas.
Não me entendam mal. Não é que eu não saiba distinguir a realidade daquilo que invento. Eu sei muito bem onde termina uma e começa a outra. O problema é que, entre as duas, existe uma passagem secreta que a minha mente insiste em deixar aberta.
E eu entro.
Entro porque há coisas que não consigo explicar de outra maneira. Porque certas dores ficam menos insuportáveis quando ganham nome, ritmo e rima. Porque, às vezes, a realidade é tão absurdamente desorganizada que inventar uma narrativa parece a única forma de não enlouquecer tentando encontrar sentido em tudo.
Talvez seja por isso que eu goste tanto de música e poesia. Elas me permitem existir em lugares que não aparecem em nenhum mapa. Posso estar sentada no mesmo lugar durante horas e, ainda assim, atravessar oceanos, reviver épocas, conhecer versões de mim que nunca chegaram a existir. Basta uma melodia, uma palavra qualquer ou uma lembrança inconveniente para que a gravidade perca completamente o efeito.
E lá vou eu outra vez.
Enquanto o mundo se preocupa com horários, compromissos e boletos, eu estou ocupada imaginando como seria a cor de uma saudade se ela pudesse ser vista do espaço. Ou pensando se as estrelas também sentem falta umas das outras quando desaparecem no horizonte. Ou criando uma conversa inteira porque alguém me olhou de determinada maneira e, aparentemente, meu cérebro decidiu que isso era material suficiente para uma novela de cento e vinte capítulos.
Não há cura conhecida para esse tipo de desatino. Pelo menos, nenhuma que eu esteja disposta a procurar.
Aprendi a aceitar que existe uma pequena astronauta vivendo dentro de mim, uma criatura distraída que se alimenta de canções, coleciona palavras e transforma qualquer acontecimento banal numa questão de proporções universais. Ela não sabe muito bem como voltar para casa, mas conhece o caminho de cor para lugares que nem sequer existem.
E, sinceramente, há dias em que prefiro a companhia dela.
A Terra tem seus encantos, claro. Mas também tem suas urgências, suas decepções e essa mania inconveniente de exigir que a gente saiba exatamente o que está fazendo da vida. No meu universo particular, posso não saber de nada. Posso ser contraditória, exagerada, sentimental e completamente incapaz de explicar por que determinada canção me faz querer chorar por uma coisa que nunca aconteceu.
Posso simplesmente sentir.
E, para alguém que passa tanto tempo tentando traduzir o próprio caos, isso já é uma espécie de liberdade.
Portanto, se algum dia me encontrarem olhando para o nada, com os olhos perdidos e uma expressão de quem acabou de receber uma notícia devastadora, não se preocupem. É possível que eu esteja apenas tentando lembrar o verso de um poema. Ou imaginando uma galáxia. Ou reorganizando os escombros de alguma catástrofe emocional para transformá-los em literatura.
Ou, quem sabe, tenha ido longe demais desta vez.
Não mandem equipes de resgate. Não chamem a NASA. Não tentem calcular a distância entre mim e a realidade.
Deixem-me flutuar.
Afinal, alguém precisa cuidar das coisas que não existem.
E eu, infelizmente, tenho sido uma funcionária exemplar.
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Autor:
Tória (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 10 de outubro de 2026 21:39
- Comentário do autor sobre o poema: Diferentemente do que sempre trago para o MLP desta vez não estou publicando um poema, sim uma crônica, espero que gostem dessa narrativa e desse novo formato de texto :)
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 4
- Usuários favoritos deste poema: Morlock

Offline)
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