Licença Poética

Jorge E. Leal


Jorge E. Leal
Aline boa,
Aline bela,
Aline sempre de bom humor.
Imagino Aline batendo na porta do céu:
— Licença, meu Santo Chaveiro!
Esvoaçante, como sempre Aline.
E o bonachão senhor do tempo:
— Entra, Aline traga o sol da abundância.
Você não precisa pedir licença, nem a poética!


Verônica espreita — o tempo arrasta.
Ela é fria, escuridão,
cabelos negros, perdição.
Pele pálida, toque gelado,
sorriso hipnótico, amor fadado.
Fiquei feliz na festa,
derramei mel na camisa,
Lembrança amarga a ressoar,
sempre algo sinistro
nos contos de fadas.
Verônica, soberana em seu domínio,
espelho torto, asombra,
maluca, aposta, esposa,
convulsão, bêbada, problema,
descalça,
morte em flor,
tempestade.
Beleza. Dança do ventre,
romance, puro sexo,
alucinada, nutricionista,
menina má, fumaça,
evento, volúpia,
furtiva, libertina.
Sonhadora.
No quarto, na cama, é rolo,
no jardim, não é bom.
Felicidade e loucura, flauta,
no sofá, anjo de sorte,
bruxa, pavor, medo, beijo,
parafuso solto.
Poetas!
por Morlock


A chuva cai.
Eu e o barata,
imóveis na janela,
olhamos o que não vem.
A névoa promete
sonhos presentes.
O barata não sabe do meu desejo.
Eu não sei ser calma.
O barata diz,
em conversa de outro mundo:
—deita comigo
nesse tempo.
O medo
se disfarça
de calma.
A chuva continua.
O barata me toca
e beija meus pés frios—
sou quase noiva.
A chuva escreve
na vidraça
a única palavra
que entendo:
fica.
Eu fico.
Eu não digo não.
Eu não digo nada.
Eu sei como cair
com elegância.
Não há pecado
quando
é só o corpo
que deseja
desabar
devagar.
Lá fora,
o mundo
não nos vê.
O barata diz, ah, Ayalah...
e de novo o barata
dorme no meu peito,
como um segredo pequeno.
Porque sou bicho,
porque sou breu,
porque a noite desce
e somos inocentes.
E eu, que amo
pela primeira vez,
acho graça
de estar viva.  
[de Ayalah Verônica]


Enquanto estás no meu colo,
beijo a tua testa,
e a tua mão.
Enquanto tiro gentilmente o punhal da tua mão.
Porque não quero que te machuques,
e apunhales o meu coração.
Enquanto te acaricio
e penteio o teu cabelo,
faço a confissão
— Somos irmãos.
— Mas de emoção.
— Já me fizeste chorar
— Mas continuo a te adorar.
— Estamos chateados, porque nos adoramos.
— E eu só te convenci a pular
— Para sozinho eu não ter de ficar.
No abismo não verás o inferno oculto
ou o satanás a segurar o tridente.
Mas o inferno oculto que arde
de dentro dos meus olhos ardentes.
[de Luminoso, o Vitorioso]


Império da Podridão
-
Conhecemos bem os Estados
Usurpadores da América.
-
Aprisionam os povos livres
Em nome da liberdade,
Jogam bombas à esmo
Pela paz mundial.
-
Destroçam as gentes do globo,
Sugam petróleo e a vida,
Os verdadeiros terroristas
Embrulhados em traje formal.
-
Descobrimos recentemente
Que o grande patriota,
É um novo sinônimo
Para o idiota da tribo,
Traidor da pátria.
-
[deita, rola e late]
-
Aquele que entrega de bandeja
Toda riqueza do teu país,
Em troca de fritar hambúrguer
Na terra do Mickey mouse.
-
[deita, rola e dá a patinha pro MAGA]
-
Mas o fosso não tem fim,
Defensor da familícia e das orgias
Sagradas, putaria fudida
Em nome dos senhores.
-
Comprando tudo com dinheiro vivo,
Barqueiros da morte,
Corruptos de estimação.
-
Arma na mão de criança,
Ajoelhados pra bandeira alheia,
Fogo nas universidades
E na constituição.
-
[deita, rola e balança o rabinho]
-
Amante dos banqueiros,
Servidão voluntária, a saga do coveiro
Profissional. Prontos pra enterrar
Um país inteiro.
-
Seremos os cúmplices
De toda sujeira,
Ou criaremos coragem
Para colocar o lixo pra fora?!
-
[Michel F.M.]



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