No final dos anos 80, século XX, ele tinha acabado de sair da Marinha e foi ser fiscal de salão no antigo Supermercado Maracanã.
Entrou um grupo de seis pessoas e começaram a fazer compras. Disfarçado com seu carrinho, fingia fazer compras. Observou que compravam e trocavam os preços das mercadorias mais caras pelos das mais baratas. Uma economia.
As vodcas sairiam baratinhas. Não se importou. Uma morena do grupo, muito bonita, disse:
— E se te pegarem?
O bigodudo apontou para a arma em sua cintura:
— Sou polícia!
Deu uma risada e continuou fazendo economia. A indignação lhe subiu aos olhos quando o grupo parou na seção de desodorantes e esvaziou 20 frascos em outros 20 frascos, de tão vazios que vinham. Risadas sarcásticas. Olhou para o grupo, que fazia paredinha, e arrematou:
— Leve 2 e pague 1!
E dirigiram-se ao caixa.
Como era leitor da Odisseia, não lhe restou alternativa contra aquele gigante armado. Um absurdo se combate com outro absurdo.
Vestiu a camisa de empacotador e postou-se na ponta do caixa, como quem sempre ali estivera.
— Deixe comigo — disse à moça, sem olhá-la.
A caixa baixou os olhos e foi registrando.
Bip. Bip. Bip.
A vodca saía pelo preço do vinagre, e o sargento, de braços cruzados, assistia à própria esperteza desfilar.
Então vieram os desodorantes. O empacotador trabalhou com mãos de quem embrulha presente. Os cheios desceram, os vazios subiram.
Era um sargento da PM, Opala rebaixado, rodas de magnésio. Colocaram as sacolas no porta-malas e foram embora. O estacionamento era de frente para os caixas do mercado.
Falou com o chefe da segurança, que logo disse:
— Ele vai voltar.
Os dez seguranças do mercado ficaram esperando por entre os caixas.
Dito e feito.
O Opala marrom entrou no estacionamento lentamente. As rodas de magnésio fulguravam ao sol. Policial experimentado, o sargento da PM viu que era aguardado. Olhou, pensou, pensou, abriu o porta-malas do carro e disse:
— Eu só vim aqui para apertar a mão do camarada que me deu essa sacola de desodorantes vazios. Eu encontrei um cara mais malandro do que eu!
E deu uma risada, reconhecendo a derrota.
O fiscal lembrou-se de Odisseu, que não se conteve e se revelou ao gigante Polifemo, tornando sua vida difícil no mar. Resistiu à tentação daquele aperto de mão, permanecendo Ninguém. No entanto, o supermercado reconheceu o seu pequenino feito.
Não houve tiros.
Era 14 de março, seu aniversário.
O chefe da segurança mandou colocar uma boa quantia como prêmio no seu salário.
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Autor:
LASANA LUKATA. (
Offline) - Publicado: 6 de outubro de 2026 21:52
- Categoria: Humor
- Visualizações: 4

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