Parcialmente Nebuloso com Chuvas Torrenciais

Michel F.M.

Sempre vivi cismado,
Nunca desconfio
Daquilo que cismo.

No mundo das exceções,
Só vive quem foge à regra,

Quem anda sobre a linha
Caminha para o abismo.

Espere o pior 
de quem você espera,

Espere o pior 
de quem menos espera,

Enquanto outros esperam,
Siga e deixe esperar.

Prevenido, acautelado,
Costas pra parede,
Cara pra janela.

No mundo das exceções,
Só vive quem foge à regra,

Quem anda sobre a linha
Caminha para o abismo.

Jamais desconfio
Daquilo que cismo.

05/11/22
[Michel F.M. - Revolesia]

  • Autor: Michel F.M. (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 3 de outubro de 2026 08:28
  • Comentário do autor sobre o poema: O poema "Parcialmente Nebuloso com Chuvas Torrenciais" é uma obra de tom reflexivo, filosófico e marcadamente pessimista (ou realista-cínico), que utiliza a metáfora meteorológica do título para ilustrar um estado de espírito humano: a instabilidade, a desconfiança crônica e o isolamento como mecanismos de defesa. Abaixo está uma análise detalhada dos principais eixos temáticos e estruturais do texto: 1. O Título como Metáfora Psicológica - O título utiliza termos da previsão do tempo ("Parcialmente Nebuloso com Chuvas Torrenciais") para traduzir a interioridade do eu lírico. O tempo instável espelha uma mente carregada de dúvidas ("nebuloso") e propensa a crises emocionais ou reações intensas e destrutivas ("chuvas torrenciais"). 2. A Intuição e a Teimosia (Ceticismo Convicto) - Na primeira e na última estrofe, o eu lírico assume uma postura de hipervigilância: "Sempre vivi cismado, / Nunca desconfio / Daquilo que cismo." "Cismar" significa insistir em um pensamento, suspeitar ou prever o pior. Longe de ser uma paranoia frágil, o eu lírico confia plenamente em sua própria desconfiança. Há uma circularidade irônica: ele não desconfia da própria intuição que o manda desconfiar do mundo. 3. A Crítica à Normalidade e ao Conformismo - O refrão do poema (que se repete no meio e próximo ao fim) traz uma forte carga existencial: "No mundo das exceções, / Só vive quem foge à regra, / Quem anda sobre a linha / Caminha para o abismo." • Fuga da regra: Seguir o fluxo comum da sociedade é visto como uma armadilha. A verdadeira "vida" ou sobrevivência autêntica pertence aos que se desviam. • A linha e o abismo: "Andar sobre a linha" (agir com retidão cega, obediência ou previsibilidade) não traz segurança; pelo contrário, conduz o indivíduo à ruína ou à mediocridade ("abismo"). 4. A Desilusão com as Relações Humanas - A terceira estrofe desconstrói as expectativas interpessoais com uma lógica niilista: "Espere o pior / de quem você espera, / Espere o pior / de quem menos espera" O eu lírico prega um desapego radical. A quebra de expectativa é uma certeza universal, venha ela de aliados ou de estranhos. A solução proposta é o individualismo e o movimento constante: "Enquanto outros esperam, / Siga e deixe esperar". O ato de esperar paralisa; agir de forma independente liberta. 5. A Postura de Autodefesa (A Retaguarda) - A quarta estrofe sintetiza visual e espacialmente a paranoia preventiva: "Prevenido, acautelado, / Costas pra parede, / Cara pra janela." • Costas pra parede: Proteção contra traições pelas costas (vulnerabilidade eliminada). • Cara pra janela: Olhar atento para o mundo exterior, antecipando a chegada da "tempestade" ou do perigo. Resumo Estrutural • Métrica e Rimo: O poema utiliza versos curtos e livres, conferindo um ritmo seco, direto e assertivo, que combina com a crueza da mensagem. • Circularidade: O encerramento retoma os versos iniciais invertendo levemente a ordem ("Jamais desconfio..."), sugerindo que o ciclo de desconfiança e isolamento do eu lírico é contínuo e imutável. É um manifesto de sobrevivência psicológica em um mundo percebido como hostil e imprevisível.
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 9
  • Usuários favoritos deste poema: Michel F.M., Samara A. Ferreira, Queiroz Francisco
  • Em coleções: Revolesia (Volume Único).


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