O Travesseiro

Queiroz Francisco

Pela estrada, onde fingia saber a direção,
encontrei fiapos dourados, como caídos do sol.
Os enfiava no saco e seguia, seguia, seguia,
pensando que no fim encontraria um lugar para mim:
essa tal de utopia.

No fim das contas, cheguei a uma estalagem,
os fiapos eram apenas feno.
Chorando o dono me encontrou, me alimentou.

Foi-me oferecido o cocho,
e lá deitei a cabeça sobre o saco de fiapos de feno,
ao qual carinhosamente apelidei de utopia.

Hoje sou dono da estalagem, herdei-a.
Casei-me com a filha do falecido estalajadeiro,
os filhos brincam por aí, minha esposa faz perfumes,
e eu, no fim da tarde, tiro um belo cochilo deitado
sobre a minha utopia.

Isso quando não tenho que apartar alguma briga,
malditos viajantes bêbados,
não respeitam a hora da utopia alheia.
  • Autor: F. Queiroz (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 2 de outubro de 2026 09:32
  • Comentário do autor sobre o poema: O extraordinário é encontrado justamente no ordinário aceito e habitado.
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 4
  • Usuários favoritos deste poema: Michel F.M.
  • Em coleções: Naruteza.


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