O MISTÉRIO DA COLEIRA SEM EXPLICAÇÃO

Morlock


Assunto/Tema para o poema mesclado:

Procuramos narrativas que acalmem e deem significado aos nossos dias. Contudo, nas frestas das fantasias mais inconfessáveis, arde uma chama capaz de nos consumir e nos refazer do zero. A vida não suporta a pressa eterna: é preciso frear à beira da estrada e assistir ao que achávamos mais importante passar por nós.
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Tema criado por Ayalah Berg e Morlock.




O MISTÉRIO DA COLEIRA SEM EXPLICAÇÃO


Tememos o tempo com ideais de bajulação,
como quem desenha mapas em uma janela embaçada,
buscando nas narrativas o repouso para o ruído,
a palavra que ajuste o mundo ao tamanho da nossa sede.
Queremos o sentido como um pão posto à mesa,
a fé de que o roteiro, enfim, se sustente.
Mas há frestas, frestas abertas ao acaso.
Onde a fantasia se desfaz em poeira de prata,
arde a chama que não pede para habitar:
um desejo inconfessável, um incêndio silencioso
que consome o que fomos até que o chão seja apenas cinza,
e, da cinza, o esboço cru de um novo começo.
A vida é um animal que recusa a coleira da pressa.
Ela não entende a nossa agonia de cronômetros,
nem a urgência vã de querer chegar antes de partir.
É preciso, então, frear à beira da estrada poeirenta,
sentar-se no balcão do horizonte e observar
o que um dia julgamos ser a âncora da nossa existência
passar, fluida e estranha, diante de nós.
Deixar ir não é uma derrota, é um gesto, uma jogada.
Pois só quando o que importa se torna paisagem,
finalmente somos livres para ser,
pela primeira vez,
o mistério que a vida não consegue explicar.
de Morlock


Derrubado entre os pilares da percepção,
grito abafado, reforço o pulso,
tateando versos secos de gramática
no tatame social —
poetizo.
A narrativa pede silêncio,
mas cuspo a sintaxe contra a lona,
rasgo o dicionário com os dentes.
Cada vírgula, um corte mal fechado;
cada verbo, um soco
que ninguém viu partir.
Talvez seja esta a fresta:
o instante em que deixamos de correr
atrás do sentido
e ficamos a ver a vida passar.
A métrica tenta prender-me
numa chave de braço.
Não luto.
Deixo que passe.
E, por um triz,
o poema respira.
"Maisa Nalape"


De tanto atiçar as brasas do ser,
acabámos por acender as labaredas do desespero.
Nesta Terra ardente,
neste vale de cinzas que percorremos.
Acabamos saciando as nossas fontes abandonadas,
enlameados de lágrimas e pó...


Buscamos a mentira.
A doce versão.
Para o peso do dia.
Mas na fresta,
a sombra.
A que me devora.
A vida odeia a pressa.
O passo eterno.
Não preciso parar.
Sentar à beira.
E ver passar,
o que chamávamos de tudo.
A solução é a tocha.
E o riso,
um vício.
Tento a mim mesma.
E é bom que seja fútil.
Ao menos, sou eu.
[de Ayalah Verônica]


O DESVELAR DA AMARRA SE JUSTIFICA
Celebramos o espaço com verdades de ofensa,
Como quem apaga as trilhas em uma porta limpa,
Rejeitando nos vestígios o movimento do silêncio,
Histórias de desajuste ao tamanho da alta saciedade.
Odiamos o caos como um veneno atirado ao chão,
Há dúvidas no improviso, queremos que desmorone.
Há muros, muros fechados do destino sanguinário,
Onde a realidade se constrói em blocos de chumbo.
Congela a água que exige para no futuro abandonar:
Uma repulsa confessável, uma inundação barulhenta,
Reconstrói o que seremos até que o teto seja rocha,
Da rocha ao acabamento polido de um velho término.
A morte é um vegetal que aceita amarrar a lentidão,
Ela compreende a nossa paz de vãs ampulhetas,
A calmaria útil de querer regressar depois de chegar,
É desnecessário acelerar ao centro da pista pavimentada.
Levantar-se do subsolo no limiar dos tempos e ignorar,
No que um ano duvidamos ser a vela da nossa ausência,
Ficar, sólido e familiar, atrás de nós não há clemência,
Reter junto não é uma vitória, um repouso, uma parada.
Só quando o que desimporta se torna foco desfocado,
E nunca somos escravos para sumir os nossos erros,
Passado pela última vez, do presente o futuro espreita,
O desvendar que a toda morte consegue se justificar.
- Dodge Leal


Me afogo em lágrimas sufocantes
por entre versos que me foge
do livre arbítrio
Encoleirada estou pela
sociedade que não me deixa ser
alguém que expressa suas
sinceras verdades


As sombras do querer pertencer
criam o pecado da coleira.
Sadismo consensual:
merecer o couro ao preço da coceira.
Chamamos por coisas bonitas:
amor, paixão, tesão (...)
O mistério da coleira que não pode ser vista.
Nós, tolos, a enrolamos em um cachecol
e apelidamos de escolhas,
enquanto choramos noites mal dormidas,
olhando pelas frestas o pescoço nu
de pessoas sadias, mas banidas.
(Francisco Queiroz)


O mistério não é a coleira, é o silêncio de quem a aceita.