Cartografia de um Desembarque

Versos Discretos

 

I. Iniciação
A neblina hesita antes de ceder, e a frota ancestral lança
seus olhos pesados sobre a costa ainda intocada.
O vento muda de direção, carregado de um calor que denuncia
a iminência do toque. Não há pressa nos grandes mastros de madeira escura;
o comandante sabe que a tomada de um continente selvagem
começa pelo assédio invisível, pela intenção feroz e focada de quem admira.
As marés adiantam-se, lambendo a margem,
preparando as planícies, aquecendo o silêncio da foz,
enquanto o vale aguarda, em um tremor contido,
suando em expectativa pelo peso daquela invasão.

II. Apresentação
O primeiro barco roça a areia branca com uma reverência cega.
Os passos avançam sobre o terreno macio,
mãos antigas e desbravadoras que se tornam lentas ao mapear a curva das colinas,
desenhando a cintura daquela terra, escorregando pelas encostas.
Não é um saque bárbaro, é um rito de adoração e descoberta.
Eles provam da água doce que verte quente por entre as pedras de calcário,
saboreiam o arrepio da vegetação densa que, de repente, se abre à passagem.
A geografia cede, úmida e grata pela perícia do explorador,
ofertando de bom grado seus caminhos mais apertados
àquele que sabe, com a língua e os dedos, ler cada relevo de sua extensão.

III. Conflito
Então o avanço perde a cautela. A marcha aprofunda-se no coração escuro da mata,
e a expedição perde o fôlego diante do próprio desejo.
A terra resiste e, ao mesmo tempo, arqueia-se, abraçando a invasão em uma febre indomável,
num atrito tenso de cascos contra rochedos e raízes entrelaçadas.
O ritmo acelera, descompassado. Uma tempestade irrompe rasgando o equador da noite,
exigindo mais força, mais pressão, mergulhos mais profundos na selva úmida.
É um embate cru, urgente e inevitável. A terra já não quer ser poupada;
ela puxa o invasor para o seu centro, trancando-o em suas correntes,
gemendo na fricção bárbara da tempestade,
onde render-se ao aço e à carne passou a ser o seu instinto mais feroz.

IV. Clímax
A falha tectônica racha, por fim, sob a tensão insuportável,
e a represa arrebenta-se em um estrondo visceral, que desliga a mente e o mundo.
Um vulcanismo quente inunda os canais, um derramamento de vida e febre,
selando a possessão em longos espasmos.
A frota não apenas fincou sua âncora; ela dissolveu-se ali,
naufragando de propósito, derramando toda a sua história no ventre da nova terra.
No silêncio pesado e arfante que se segue ao abalo,
o vento se acalma, os mastros deitam-se,
e a pele do mar funde-se à areia farta,
em um abraço exausto, conquistador e irreversível.



Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.