Hoje eu queria não lembrar de ti.
Queria que a noite fechasse suas cortinas
e levasse consigo teu nome,
que nenhuma estrela ousasse pronunciá-lo
sobre o meu leito.
Queria voltar à mulher que fui
antes que tua existência
se tornasse uma assombração tão íntima,
antes que teu rosto aprendesse
o caminho de volta aos meus pensamentos.
Há noites em que a saudade
não parece saudade.
Parece um fantasma.
Senta-se ao pé da minha cama,
passa os dedos pelos meus cabelos
e sussurra teu nome
até que eu já não saiba
se estou lembrando de ti
ou sendo atormentada por ti.
E eu, pobre criatura,
ainda lhe abro a porta.
Hoje, porém, eu queria ser cruel.
Queria arrancar de mim
cada lembrança tua,
como quem arranca rosas mortas
de um jardim condenado.
Queria desconhecer tua voz,
teu perfume,
o desenho do teu rosto,
a delicada ruína que deixaste
onde antes havia somente paz.
Queria meu antigo coração.
Aquele que não sabia teu nome.
Aquele que dormia sem procurar por ti
nos sonhos.
Aquele que não conhecia
essa espécie de ausência
que parece ocupar mais espaço
do que qualquer presença.
Porque há um limite
para aquilo que uma alma suporta.
E eu o sinto se aproximar.
A saudade me atravessa
como um inverno sem fim,
e tenho medo de que,
se continuar assim,
ela há de me encontrar
já sem forças para fugir.
Hoje eu não queria amar-te.
Hoje eu queria esquecer-te
com a mesma facilidade
com que a noite apaga
a última luz de uma casa.
Mas teu nome permanece.
E eu permaneço também,
velando por uma lembrança
que já não sei se quero guardar
ou enterrar.
Esta é a mais cruel
das formas de saudade:
não desejar que alguém volte,
mas desejar, desesperadamente,
ter sido alguém
que jamais a conheceu.
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Autor:
Tória (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 30 de setembro de 2026 20:07
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 5
- Usuários favoritos deste poema: Stefhany De Jesus, Carlos Carrero

Offline)
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