DEPOIS DA ÚLTIMA FRONTEIRA

Fábio Alves Leão

À meia-noite, os sinos dobram na neblina,

por almas esquecidas sob a terra fria;

a lua, moribunda, entre as nuvens se inclina,

e a noite veste o mundo em luto e agonia.

 

No velho cemitério, entre lápides quebradas,

a névoa se arrasta em seu manto de horror;

há cruzes silenciosas, por séculos abandonadas,

guardando sob a terra segredos sem calor.

 

Uma igreja em ruínas contempla a madrugada,

seus vitrais estilhaçados já não deixam passar luz;

no altar, uma vela permanece quase apagada,

como a última esperança de quem já não se conduz.

 

E quando o vento atravessa os corredores vazios,

parece que alguém chama por detrás do portão;

não são gritos, são sussurros tardios,

de mortos procurando uma última redenção.

 

Às vezes imagino o que existe além da morte,

se há alguma passagem depois do derradeiro fim;

se uma mão invisível modifica a nossa sorte,

ou se a noite simplesmente termina dentro de mim.

 

Talvez exista um reino de silêncio e eternidade,

onde os mortos caminhem sob estrelas sem luar;

talvez encontremos aqueles que amamos de verdade,

esperando em algum lugar para nos abraçar.

 

Talvez não exista céu, nem inferno, nem memória,

nem anjos, nem demônios guardando o além;

talvez sejamos somente uma página da história,

que o tempo rasga lentamente e nunca mais retém.

 

E esse é o horror que a morte nos revela:

não saber se existe um princípio após o fim;

se haverá outra porta além daquela janela,

ou se a eternidade será o silêncio dentro de mim.

 

Tenho medo da morte, confesso sem disfarce,

mas há em mim também uma estranha curiosidade:

que segredo se esconde quando o último sonho parte?

Que rosto nos espera além da mortalidade?

 

Talvez Deus esteja atrás da última porta,

talvez somente a escuridão esteja lá;

talvez uma voz desconhecida nos conforte,

ou talvez não exista voz alguma para chamar.

 

E quando chegar a hora, sem aviso ou testemunha,

quando o último suspiro abandonar o coração,

talvez a própria morte, silenciosa e sem vergonha,

me conduza pela mão para outra dimensão.

 

Então olharei para trás, pela última vez,

para a vida que deixei sob a luz do amanhecer;

para tudo que amei, para tudo que não fiz,

para tudo que perdi sem sequer perceber.

 

Os sinos soarão longe, dissolvidos na neblina,

a lua se esconderá atrás do céu sem cor;

e eu atravessarei, sozinho, a última cortina,

sem saber se encontrarei o vazio ou o amor.

 

Porque talvez morrer seja somente atravessar

uma porta que permanece fechada enquanto vivemos;

e talvez do outro lado alguém venha nos chamar,

dizendo que finalmente chegamos aonde pertencemos.

 

Mas enquanto essa porta permanecer fechada,

continuarei caminhando entre a dúvida e a luz:

com medo do fim, com a alma atormentada,

e a eterna pergunta que a própria morte conduz:

 

“O que existe depois da última fronteira?”

 

E a noite, indiferente, não responde.

Apenas os sinos continuam a dobrar.

E entre os vivos e os mortos, o silêncio se esconde,

como se o próprio além tivesse medo de falar.

 

 

  • Autor: Brendon Leão (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 30 de setembro de 2026 07:18
  • Categoria: Gótico
  • Visualizações: 1


Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.