À meia-noite, os sinos dobram na neblina,
por almas esquecidas sob a terra fria;
a lua, moribunda, entre as nuvens se inclina,
e a noite veste o mundo em luto e agonia.
No velho cemitério, entre lápides quebradas,
a névoa se arrasta em seu manto de horror;
há cruzes silenciosas, por séculos abandonadas,
guardando sob a terra segredos sem calor.
Uma igreja em ruínas contempla a madrugada,
seus vitrais estilhaçados já não deixam passar luz;
no altar, uma vela permanece quase apagada,
como a última esperança de quem já não se conduz.
E quando o vento atravessa os corredores vazios,
parece que alguém chama por detrás do portão;
não são gritos, são sussurros tardios,
de mortos procurando uma última redenção.
Às vezes imagino o que existe além da morte,
se há alguma passagem depois do derradeiro fim;
se uma mão invisível modifica a nossa sorte,
ou se a noite simplesmente termina dentro de mim.
Talvez exista um reino de silêncio e eternidade,
onde os mortos caminhem sob estrelas sem luar;
talvez encontremos aqueles que amamos de verdade,
esperando em algum lugar para nos abraçar.
Talvez não exista céu, nem inferno, nem memória,
nem anjos, nem demônios guardando o além;
talvez sejamos somente uma página da história,
que o tempo rasga lentamente e nunca mais retém.
E esse é o horror que a morte nos revela:
não saber se existe um princípio após o fim;
se haverá outra porta além daquela janela,
ou se a eternidade será o silêncio dentro de mim.
Tenho medo da morte, confesso sem disfarce,
mas há em mim também uma estranha curiosidade:
que segredo se esconde quando o último sonho parte?
Que rosto nos espera além da mortalidade?
Talvez Deus esteja atrás da última porta,
talvez somente a escuridão esteja lá;
talvez uma voz desconhecida nos conforte,
ou talvez não exista voz alguma para chamar.
E quando chegar a hora, sem aviso ou testemunha,
quando o último suspiro abandonar o coração,
talvez a própria morte, silenciosa e sem vergonha,
me conduza pela mão para outra dimensão.
Então olharei para trás, pela última vez,
para a vida que deixei sob a luz do amanhecer;
para tudo que amei, para tudo que não fiz,
para tudo que perdi sem sequer perceber.
Os sinos soarão longe, dissolvidos na neblina,
a lua se esconderá atrás do céu sem cor;
e eu atravessarei, sozinho, a última cortina,
sem saber se encontrarei o vazio ou o amor.
Porque talvez morrer seja somente atravessar
uma porta que permanece fechada enquanto vivemos;
e talvez do outro lado alguém venha nos chamar,
dizendo que finalmente chegamos aonde pertencemos.
Mas enquanto essa porta permanecer fechada,
continuarei caminhando entre a dúvida e a luz:
com medo do fim, com a alma atormentada,
e a eterna pergunta que a própria morte conduz:
“O que existe depois da última fronteira?”
E a noite, indiferente, não responde.
Apenas os sinos continuam a dobrar.
E entre os vivos e os mortos, o silêncio se esconde,
como se o próprio além tivesse medo de falar.
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Autor:
Brendon Leão (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 30 de setembro de 2026 07:18
- Categoria: Gótico
- Visualizações: 1

Offline)
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