MEIA-NOITE

Maximiliano Skol

É meia-noite.
Do meu quarto
pela porta de vidro
vejo o tênue claro
da rua.
Ele reflete
nas hastes prateadas
da rede elétrica no muro.
E estende uma sombra macilenta
nesse trecho do jardim.
Onde o vão da casa do vizinho
ao fundo
–seu jardim tropical–
recolhe a esta hora densa solidão.
A negritude que se faz
sobre os arbustos
resgata de mim
sombras do passado:
–amigos que se foram...
Meus pais há muito                                          são esmaecida memória.
Deles sou único subsistente.
E uma onda de solitude
rebate na minha alma.
Há um silêncio
de um eco antigo.
O tempo inexiste,
tudo parece imóvel
.
Mas me engano,
pois eu sou.
E me sinto sendo
o fantasma a completar
o quadro à minha frente,
com o pressentimento
desta visão funérea
entranhada
no meu  existir.
Então desço
a cortina da porta de vidro.
E fico.

Tangará da Serra, 27/09/2026

Comentários +

Comentários3

  • Queiroz Francisco

    Que cena, caríssimo
    Um encanto como conduziu os versos, me prendeu.

    Um salve, amigo

    • Maximiliano Skol

      Gratidão, meu ilustre amigo, Queiroz Francisco, pela sua visita e comentário.
      Forte abraço.

    • Shmuel

      Uma pérola de poesia.

      Ao baixar o pano o eu lírico rompe o contato visual com a noite e com as lembranças dolorosas do exterior.

      Um forte abraço, mestre Maximiliano Skol.

      • Maximiliano Skol

        Queridíssimo Shmuel, com é bom ver este teu sorriso a visitar-me.
        Um abração.

      • Maria do Socorro Domingos

        Um poema profundo, carregado de emoção.
        Grande abraço, meu amigo.
        Deus o abençoe infinitamente.



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