O CORTEJO DOS CONDENADOS

Ayalah Verônica Berg

 

O sonho escorre por feridas abertas,
rodas de caminhões de ossos rangem nos becos,
nosso humor é um rio de leite coalhado.
Os cristais não florescem—sangram,
e seu brilho corta o hospício ao meio,
enquanto as ruas de pedras antigas
sussurram nomes de mortos.
 
Minha dor? Era púrpura e âmbar,
mas arrancaram-na viva do lago,
e agora voa, asas de vísceras,
rumo ao crepúsculo que engole crianças.
Os sóis ao longe são dementes,
piscando como olhos de loucura,
e a violência previsível...
é o abraço do deus quando desmaia.
 
Aqui não é o paraíso — é o prostíbulo,
onde servem sexo em taças de crânio,
café da manhã com pétalas de arsênico,
e a pólvora cheira a jasmim seco.
As paredes respiram, úmidas em segredo,
e no espelho, meu reflexo sorri sozinho.
 
O mundo é um teatro de sombras
encenado por dois esqueletos reais,
coroados com teias de aranha,
entronizados em cadeiras de unhas.
Eles riem com vozes de mosca,
enquanto o poder escorre de seus dedos
como cera de um candelabro maldito.
 
Nosso romance? Uma dança de vermes,
dois cadáveres se amando
no altar de uma igreja em chamas.
Eles trocam alianças de serpentes,
e seus beijos conhecem a terra de cemitério.
 
Por que? Somos apenas outro espectro,
a sombra que se alimenta do medo,
o hálito que embaça os espelhos
quando a morte se olha, suspira.
Nosso coração é um relógio parado,
mas com dentes que ainda tocam
o hino negro dos que não têm cova.
 
Agora o inverno sepulcral desaba,
e os cristais explodem em lágrimas de cristal,
enquanto os dois reis decrépitos
se dissolvem em pó de cânula.
Sobram apenas ecos de risos perdidos,
e meu próprio corpo, transparente,
gotejando alucinações no mármore frio,
refletindo o destino eterno da morte. 
 
 
O Cortejo dos Condenados 
  de Ayalah Verônica Berg 

 

  • Autor: Ayalah Berg (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 28 de setembro de 2026 11:30
  • Comentário do autor sobre o poema: "Tudo é tão pouco. Este corpo / Onde o bicho homem se acomoda e geme / Este mesmo corpo que um dia será pasto de vermes / E que agora, entanto, tosse, ama, deseja / E escreve cartas para o nada." –Hilda Hilst
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 7
  • Usuários favoritos deste poema: Ayalah Verônica Berg, Queiroz Francisco, Morlock


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