QUEM PODE SALVAR A SI MESMO?
Enquanto nos enganamos, nos embriagamos. Talvez seja essa a maneira mais honesta que encontramos de suportar a própria lucidez. A gente chama de liberdade aquilo que, muitas vezes, não passa de uma fuga bem-arrumada.
Eu queria poder tirar do rosto esse olhar de mil jardas. Não porque ele seja bonito ou profundo — essas coisas ficam muito bem em poemas, mas na vida real só cansam. É o olhar de quem já viu demais dentro de si e descobriu que lá dentro não havia nenhum herói esperando para salvá-lo.
Tantas auroras, outrora, eram meu renascer. Eu acreditava nas manhãs. Veja só a ingenuidade: acreditava que cada dia trazia alguma coisa nova, como se o simples fato de o sol nascer tivesse obrigação de me devolver aquilo que eu havia perdido. Hoje o ocaso é minha morada. E não digo isso com orgulho. Há certas tristezas que a gente acaba usando como quem usa uma roupa velha: já não gosta, mas conhece o tamanho.
Solidão... solidão... Triste melancolia. Palavras pequenas para uma coisa que ocupa tanto espaço.
Um dia achei que estava preso. Passei anos desejando a liberdade como um condenado imagina o primeiro passo depois das grades. Queria romper tudo, fugir de tudo, respirar sem que ninguém me dissesse como deveria viver. E consegui. Ou pelo menos foi o que pensei.
Porque existe uma ironia miserável nisso tudo: quando finalmente abriram a porta, descobri que ninguém havia me ensinado a sair.
Então fui embora carregando a prisão comigo.
E talvez seja essa a parte mais humilhante da liberdade: descobrir que o carcereiro pode estar dentro da gente. Não precisa de correntes, não precisa de muros, não precisa sequer levantar a voz. Basta um pensamento antigo, uma culpa bem alimentada, uma lembrança que se recusa a morrer.
E cá estou eu, livre.
Livre para me perder, livre para escolher, livre até para destruir aquilo que amo e depois passar noites tentando compreender por que fiz isso.
Que liberdade magnífica!
Quase dá vontade de agradecer.
Pode poder podendo?
Não sei.
Talvez eu tenha passado tempo demais querendo ser livre para perceber que liberdade nenhuma nos salva de nós mesmos. E essa, convenhamos, é uma prisão bastante ordinária para quem passou a vida inteira sonhando com a grande fuga.
era ele um exemplo
do Não-Ser.
até que não seria
tão ruim,
se não fosse
tão péssimo.
um acabamento
mal feito de verdade,
um manifesto
reverso da ostentação.
nada menos que
o cúmulo da ausência
total de presteza.
no acúmulo da
inabilidade que possuía,
o indivíduo tornar-se-ia
neste ritmo em que vinha,
nulo. o próprio gênio invertido,
projetado do avesso,
na contramão da maestria.
conquistado
a duros deslizes,
o personalizado direito
à inaptidão.
fosse esta veemente
incompetência,
adquirida
ou congênita,
nos tropeços
da hereditariedade,
moldar-se-iam
teus dotes,
geração pior que geração.
como alguém
pode possuir
uma falta de noção
tão grande
e desproporcional [??]
um enigma
impenetrável
diante da vista estupefata.
na contemplação
vacilante e desnorteada
do observador,
podia-se constatar
o nível alarmante,
de incredulidade
e atordoamento.
a transmissão em
larga escala da magnitude
do desastre,
o nobre erro hiperbólico.
uma performance
antológica, impossível
de prever ou ignorar,
a excelência do descaso.
uma ópera orquestrada
ao vivo, pelo despreparo
da inépcia absoluta.
a saga brilhante
da mediocridade
elevada ao cubo.
mas o relaxo extremo,
não é um campo de amadores.
como qualquer outra técnica,
exige intencionalidade
e precisão no desleixo.
que só pode ser alcançada,
na reincidência obstinada
da repetição [com todas as
redundâncias], levando
por conseguinte, ao
aperfeiçoamento
de teu virtuosismo.
[Michel F.M.]
A aurora já não me interessa.
O sol é um impostor,
a luz, uma promessa quebrada.
Caminho por sombras,
onde o desejo me devora,
como um amante inaudito.
A solidão é um vestido justo,
tão gasto.
A liberdade,
essa piada amarga,
me ensinou a amarrar
com correntes invisíveis.
Um carcereiro sussurra
dentro de mim.
E a culpa?
A bruxa infiel
que se deita conosco
na calada da noite.
Uma onda de risos perdidos,
um som que fere.
Ah, o êxtase da ilusão!
Um beijo que queima,
um instante de entrega,
e depois, o vazio.
Como um poema maldito,
a vida se perfaz.
Liberdade —
um labirinto sem saída.
O que é ser livre,
senão carregar o peso
de ser eu mesma?
Não sou o grito silencioso
dos pensamentos antigos.
Estou apenas perdida na trama
de ser quem sou,
sem saber se posso
salvar a mim mesma.
A liberdade não
seria a prisão?
E, quem sabe, um dia
eu aprenda a tecer.
[de Ayalah Verônica]
Dos amores avassaladores
Não restam resquícios,
Dos desastres aterradores e paralisantes
Nenhum sensacionalismo,
-
Para se converter em criação
Poética, com terminologias
Rebuscadas, que fazem o autor
Se passar por alguém, muito
Mais intelectual do que realmente é.
-
Alguns poemas são só
O exercício fútil, canalizado
Pelo péssimo hábito em produzir
-
Trovas contra si mesmo, de um poeta
Cansado demais, para
Dizer algo relevante.
-
[Michel F.M.]
- Autores: C.araujo (Pseudónimo, Michel F.M., Ayalah Berg
- Visível: Todos os versos
- Finalizado: 10 de outubro de 2026 15:30
- Limite: 12 estrofes
- Convidados: Amigos (usuários da sua lista de amigos podem participar)
- Categoria: Não classificado
- Visualizações: 10

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