Súplica à Morte

Ricardo Maria Louro



Quando a noite vier sobre o meu rosto
e o mundo adormecer na solidão,
leva-me, ó Morte, sem compaixão,
que já não temo esse desgosto.

 

Seja o silêncio o meu último abrigo,
sem luz, sem voz, sem sonho, nem piedade;
apague em mim a antiga mocidade,
e esconda o meu cadáver de mendigo.

 

E, se depois, chorarem meus amores,
que flores nasçam entre solidões,
anexadas às badanas dos tristes corações 
daqueles que me verem abatido e sem cores.

 

Não quero monumentos nem louvores 
deixai-me apenas junto aos velhos ciprestes
carregados de epitáfios agrestes
onde a noite me embale em seus lividos odores.

 

E quando a Lua, pálida e esquecida,
passar sobre a cruz do meu sepulcro,
talvez desperte o mais profundo luto
daquela que foi a minha pobre vida.

 

Então direi, perdido, ao som d'um grito:
morrer foi só dormir sem voltar a despertar!
E a própria morte, ao ver-me a soluçar
terá por mim piedade — lá no infinito...

 



Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.