Odisseia de um Floricultor

Zimon

O Sol invadia a loja pela janela aberta

Abraçando os lírios e camélias

Num pote punha mais terra

Preparando-a como uma nova tela

Para acomodar a especial floração

Da flor que nomeei de "Coração"

 

Quando as cortinas estavam cerradas

A placa de "aberto" virada

E mais nenhuma flor por luz clamava

Ouvi o sino zunir e a porta abrir

"A floricultura está fechada", eu falara

Mas perdi-me em seus olhos sob a alvorada

 

Eles miravam na minha especial floração

Flor da qual eu zelava a proteção

Sob o teto ela se encontrava

Acima de uma alta e escura escada

"Não a vendo nem por prata", eu avisara

Mas seu número eu já anotava

 

Enquanto o Sol subia e descia

E a lua se erguia e minguava

Te recebi de novo e de novo

Em pouco tempo, você virou meu porto

As flores gritavam em alerta

"Naquilo não se pode confiar!"

Eu as desobedecia, sem intenção

Pois por você desabrochou meu Coração

 

Dançando ao redor dos balcões

Entoávamos pequenas e melosas canções

Cegado pela música, sem perceber

Sua outra face que começava a aparecer

O líquido verde em seu regador

Doce veneno, que nas flores causava dor

 

Incrível como as coisas mudam rapidamente

Uma hora está do meu lado e outra está ausente

Voltei a floricultura e não encontrei seu corpo presente

Estava escura, fechada, um lugar para guardar penadas almas

Apenas uma fresta de luz entrava, iluminando seu rosto inconsequente

 

Você no alto da escura escada

Cheio de si, tão impotente

Com a frágil flor em mãos

Cheia de mim, tão impotente

Você era meu Ícaro

Que perto demais do Sol chegou

Mas foi o Sol, dessa vez

Que num mar de lajes se despedaçou

 

Vomitei rosas no chão

Murchas, mortas de tamanha repudiação

Você não estava mais no alto da escada

Nem mais onde poderia ser sua morada

Ouvi o sino soar e a porta fechar

E de ti nunca mais ouviria falar

 

Reunidos os cacos da flor vital

As outras choravam de forma banal

Rastejei até a porta dos fundos

Onde considerava o fim do mundo

Atrás da floricultura, o enterro já estava marcado

E será o do meu Coração despedaçado

 

Sob o pranto de grossas nuvens

Longe dos normais costumes

Cavei a unhas a funda cova

Onde a luz não consola

E tudo a escuridão devora

É ali o fim da bela floração

Da flor nomeada Coração

 

Aos pés do túmulo me debrucei

E lá por muito tempo morei

Abaixo do Sol e do luar

Das chuvas e do vento a soprar

Raízes nos meus pés vinham se enroscar

Mas cada triste lágrimas no solo alimentava

Um futuro que ninguém ainda matara

 

Uma brecha no céu surgiu

A luz do Sol o mundo invadiu

Diante de meus olhos vi nascer

Algo vindo do que falhei em proteger

Pequena Lótus, filha de meu Coração

Uma nova chance é o que mereço?

Dentro da esquecida floricultura

As flores cantam sobre um novo recomeço

  • Autor: Zimon (Offline Offline)
  • Publicado: 24 de setembro de 2026 16:57
  • Comentário do autor sobre o poema: Poema feito para um festival de poesia escolar, mas me empolguei na hora de escrever
  • Categoria: Amor
  • Visualizações: 4
  • Usuários favoritos deste poema: Michel F.M.


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