YES
Nunca fui criança extrovertida;
recolhida em mim, travei o passo,
de poucos amigos feita a vida,
de silêncio denso cada espaço.
Nunca conheci a extrema dor,
nem a vida tive em sobressalto;
mas não creia o mundo, em seu louvor,
que erguer a existência seja fácil.
As alegrias do mundo não alcancei,
furtivas, rasas, sem consistência,
mas mil vezes na pele decifrei
as agonias de toda uma existência.
Nunca entendi o laço da amizade,
sua teia vaga, seu elo incerto;
mas compreendi com sobria clareza
as maldades deste mundo imperfeito.
Facilidade há em ser feliz,
na superfície onde tudo passa;
difícil é cavar até a raiz
da tristeza que o peito esmaga.
Tão fácil é ser ou não compreendido,
enquanto o peito se fecha em pedra,
guardando o lamento já contido,
as feridas puras e a dor que cede.
Na tela fria, o circo da política:
a mesma mentira, a mesma cena,
e a massa cega, em pose analítica,
morde o anzol que a torna pequena.
Sonhei, pensei, desacreditei de tudo,
dormi na sombra, acordei na aurora,
chorei o pranto dos que ficam mudos,
vivi amores que o tempo devora.
Testei os sabores, provei a dor,
cruzei caminhos sem horizonte;
mas no fim de tudo, resta o clamor
deste enigma que a alma esconde:
Não entendo o mundo, não entendo você,
e na teia escura em que me entreteço,
olho no espelho sem compreender
a questão de viver, do fim ao começo.
Despertei neste dia
Com todas as resoluções,
Quando na verdade
Não queria mais saber
Das respostas ou perguntas.
O que eu realmente
Queria, era desaprender
Tudo o que aprendi até aqui.
Desprender-me de todo
Conhecimento, desapegar-me
Dos aprendizados que
Armazenei, neste compartimento
Sobrecarregado de ditames
E dizeres, que não me dizem
Respeito, que não me dizem mais nada.
[Michel F.M.]
Nunca fui um iludido do destino,
encerrado em mim, segui tateando,
num mundo de desejos, fui desatino,
nos caminhos frios, sempre vagando.
Nunca provei a dor em sua essência,
a vida, um sussurro em vão e calmo.
Nunca compreendi laços de afeto,
teias trançadas, elos traiçoeiros.
Mas reconheci, na bruma do direto,
as crueldades das mulheres sinceras.
Fácil é rir, à margem do buraco,
onde tudo se esconde em um medo
difícil.
Difícil é desvelar a realidade
da tristeza que em vão o peito lança.
Tão simples é ser ou não ser amado,
enquanto a alma se inibe em demasia.
Guardo o pranto, o lamento calado,
as feridas hão de gritar um dia.
Sonhei, pensei, desacreditei,
dormindo de olho no crepúsculo,
chorei vozes que a dor não escutei,
vivi amores que perderam o ciclo.
Experimentei os sussurros da dor,
passei por trilhas sem a luz do sol.
Mas no fim, um só clamor,
não entendo o mundo, não entendo o amor,
na teia obscura onde me cubro,
olho no espelho, com pena e terror,
e pergunto da vida, se é tudo falso.
por Morlock
Nunca fui santa de infância.
Sempre mordi o silêncio.
Aprendi a rir
antes de aprender a mentir.
A dor? Conheci dos outros.
Não me apresentei.
A alegria? Trama fria.
Passou rápido e não voltou.
Divertida é a noite.
Cuspo no corrimão.
A amizade é um copo sujo.
Gosto mesmo assim.
A política, um salão
onde todos pagam para enganar.
No espelho, minha cúmplice.
Na cama, não aposte.
Vivo como quem cai:
sem mentir verdades.
O sol nasce para todos.
Que bobagem.
O tempo enrola
quem espera.
Quem não para,
esquece.
[de Ayalah Verônica]
- Autores: FELICITY_POETA (Pseudónimo, Michel F.M., Morlock, Ayalah Berg
- Visível: Todos os versos
- Publicado: 23 de setembro de 2026 12:48
- Limite: 15 estrofes
- Convidados: Aira Lirien, alexonrm, Arthur Santos, Ayalah Verônica Berg, Michel F.M., Minha Caixa de Pandora, Morlock, Oswaldo Jesus Motta, Peregrina, Pietro Guilherme Piazera.
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 7
