Cabocla

Versos Discretos

No mormaço da tarde que custa a passar,
seu corpo despido é chão que me chama.
Você se ajeita no lençol, toda dengosa,
num preguiçar manso de bicho do mato,
e eu fico pelejando pra guardar nos olhos
o tamanho dessa boniteza que me desassossega.

Seus seios têm o peso bom de duas cabaças fartas,
dessas que o sertão guarda pra matar a sede;
curvas de manga-rosa quando amadurece no galho,
macias, quentes de sol,
pedindo o toque devagar,
de quem conhece a hora certa da colheita.

Sua boca é jabuticaba madura,
dessas que estouram docinhas entre os dentes,
com gosto de mel de uruçu,
doce que demora na língua
e fica na boca depois do beijo.

A dobra do seu pescoço
tem cheiro de terra molhada depois do toró.
E quando chego o sopro no pé da sua orelha,
você se arrepia todinha,
se encolhe no meu peito, manhosa,
como quem quer fugir
mas não quer que eu deixe.

Descendo devagar pelo relevo do seu ventre,
a quentura vai tomando conta.
Suas coxas são duas veredas de terra roxa,
firmes, roliças como tronco de angico novo,
guardando entre elas
o lugar onde meu desejo se perde.

E ali, na sombra mais funda dessa grota,
sua flor é mina d'água brotando na calada,
pétala de mandacaru aberta pro sereno,
viva, molhada,
cheirando a mormaço e mel,
e eu fico tonto, sem saber caminho,
feito homem perdido no meio da caatinga.

Ver você assim, sem roupa e sem segredo,
é feito ver o sol se deitar na chapada:
um trem bonito demais,
cru demais,
que até faz a espinha gelar.

Então arreda esse medo pra lá,
chega mais, me dá esse dengo.
Que hoje eu quero esquecer o rumo,
soltar as rédeas do juízo
e me perder, sem pressa,
inteirinho no seu sertão.

  • Autor: Versos Discretos (Online Online)
  • Publicado: 22 de setembro de 2026 10:07
  • Categoria: Erótico
  • Visualizações: 5


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