I (Seção "Madrugadas incandescentes")

Francisco Gomes

Do que adianta habitar
lugares
coisas
se não sentes nem vives
lugares coisas?
 
Experenciar está além do
imagético contido
superficialmente
sintético
sob
as
escamas
das palavras.
 
Do que adianta habitar
pedras cactos gatos
se não povoas
labirintos contidos em ti
mesmo?
 
(Habito a madrugada
com o materno amor atravessado
nos olhos
no corpo todo
nas lágrimas risos
abraços febre calafrios)
 
Habitar requer o Inesperado
o alvorecer dos ossos
a surdez dos cantos
e o sórdido dos sorrisos
nos soluçosos dentes.
 
No imediato encolhe-se
o Obscuro
entre murmúrios e clamores
intranquilos.
Tentasse habitar o Obscuro...
 
Tentasse habitar o escuro
das gavetas
e dentro dos sapatos
o vazio dos espaços...
 
Legaram-nos os gestos
previsíveis
o surto do vir-a-ser
o caótico engano
das matizes.
 
Habitar requer frestas
nas lembranças
e rachaduras nos sonhos
herdados em espólios.
 
Habitar requer refugiar-se
no coração-habitat no cantar
dos galos dos grilos
das estrelas apagando-se
no âmago-áporo do novo dia.
 
Habitar
requer silêncio sem pressa
sem presságio sem salve-se-quem-puder.  
 
Requer
sempre o RE
do habitar
de Snyder.
 
Requer
o brilho nos olhos opacos
dos peixes em cardumes
alados
aliados aos ballets de Stravinsky.
 
Do que adianta habitar
Desproximidades?
 
Apesar da distância
do lugar mais ermo
ou
ao navegar a esmo
 
longe de tudo
é abraçar o nada
ao exilar-se
no mim-mesmo.
 
Habitar
requer extremos ambiguidades.
E dualidades.
 
Requer
a firmeza
a calma da pedra
na água e na terra.
Requer ápice em si.
 
Habitar
não está fora nem dentro
está nas fronteiras
quando
            um salto no tempo
            traz plenitude e equilíbrio
            feito pluma ao vento.
  • Autor: Francisco Gomes (Offline Offline)
  • Publicado: 17 de setembro de 2026 14:45
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 2


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