O QUARTO DO ABSURDO

Ayalah Verônica Berg


Aquele quarto.
Ninguém o habita.
Ele habita.
Escondemos o que não se diz—
ah, o desejo.
Essa chama que arde sem iluminar.
A chave...
Perdemos?
Melhor assim.
O presente é uma porta fechada.
Do lado de dentro, tudo.
Do lado de fora, nada.
O desejo arde.
O segredo é doce.
O absurdo basta.
O deus cala.
É necessário.
E o quarto permanece.
Como sentença.
[de Ayalah Verônica]


Mas o coração sabe onde guardou,
Num canto quieto, onde o silêncio fala,
O que a boca calou, a alma revela,
E a chave não se perdeu — está em mim.
Abro devagar, sem medo, sem receio,
Deixo a luz entrar, o sentimento aparecer,
O que era escondido agora é canção,
E o quarto se enche de vida e de você.
— Milton da Costa ????


Os poetas têm acesso direto a esse quarto
Que bem pode ser uma clausura
Onde a inspiração o torna farto
De variações
Iluminado
ou às escuras
Nele também se projeta tantos atos
De terror
De ternura
De dor
De amores e
De lisuras
Mormente
Imaginado em toda mente
Que nele se instala
E se demora
E devora
Toda inspiração e arte
Se ajunta
Se reparte
Intimidade com muita loucura...
LUCITA POETISA


Entre quatro paredes de silêncio denso,
Ergue-se o palco de uma lucidez sã,
Onde o impalpável ganha o seu contorno denso
E a noite antiga encosta na manhã.
Neste aposento onde a razão se espanta,
Móveis de sombra guardam o que foi dito,
E uma verdade solitária e mansa
Ecoa a voz longínqua do infinito.
A mesa posta com o nada e com o tempo
Não traz o pão que sacia a fome humana,
Mas traz o sopro, o transe e o movimento
De uma certeza breve e tão profana.
Erram no teto as formas do dilema,
Sombras de escolhas que o homem já fizera,
E cada fresta é um verso de um poema
Que a própria vida a esmo desvenda e gera.
Não há relógio que marque a hora certa,
Pois o relógio esqueceu-se de andar;
Nesta clausura ampla, alma desperta,
O ser contempla o rastro do olhar.
Para que serve a chave e a fechadura
Se a porta aberta leva ao mesmo nada?
A mente habita a própria arquitetura
De uma existência livre e desolada.
Entre o absurdo e a graça de existir,
Caminha o passo firme do pensador;
Ele não busca o porto a sorrir,
Mas acolhe o enigma com fervor.
Eis a beleza fria deste espaço,
Saber que a vida é um risco no vazio,
Onde o destino se faz de um só pedaço
E o pensamento corre em leito frio.
Fecha-se o ciclo nesta estrofe derradeira,
Onde o mistério é teto, chão e véu;
O homem ergue a fronte altaneira,
Habitando o seu quarto,dono do seu céu
Felicity_poeta


O quarto é espelho da alma inquieta,
Reflete sonhos que o tempo não apaga,
Onde a coragem encontra a sua meta,
E o medo dança na sombra que se alarga.
Os segredos sussurram entre as paredes,
Histórias gravadas em cada tijolo,
E a chave perdida, entre as redes,
É um convite ao mistério, um consolo.
O Químico da Poesia.


Esta porta que não se fecha
Mas também não se escancara.
Fica sempre entreaberta,
Ora mostra, ora guarda.
Desço muito.
A escada é grande.
A luz é pouca.
E do chão úmido
Exala triste lembrança
Que embriaga.
Mas sempre que chego à porta
Decidido a fechá-la,
Puxo com força a tranca.
Mas pena é não ter a chave
E soterrar essa tristeza
De vez...
Na eternidade.


Nossos corpos tem um destino,
Eles esbarram por paredes mudas.
Mas elas ficam pelo caminho,
Quando chegamos no secreto que nos cura.
Nesse lugar a alma fala entre gemidos,
Ela diz com os olhos tudo que quer dizer.
Os desejos são plenamente conhecidos.
Somos transparentes diante de cada ser.
Em meros segundos nos despimos,
Podemos aqui nossa nudez contemplar.
Sem pecado e sem juízo,
Apenas indecentes na arte de amar.


Existe um lugar escondido dentro de mim,
no fim de um corredor que quase nunca percorro.
As paredes ainda sabem meu nome,
as gavetas guardam cartas que nunca enviei,
e há fotografias minhas
que eu não tenho coragem de olhar.
Deixei algumas versões de mim ali,
sentadas em quartos que já não uso,
esperando por coisas
que nunca soube pedir.
Há sentimentos dobrados dentro de caixas,
palavras que envelheceram em silêncio,
e lembranças que ainda conservam
o cheiro de certos dias.
De vez em quando, passo diante daquela porta
e encosto a mão na maçaneta.
Não entro.
Fico ali, por alguns segundos,
tentando lembrar
o que ainda sou
do outro lado.
-Tória


No quarto de frestas que ninguém vê,
guardo o relógio que esqueceu o tempo.
A memória é poeira
sobre os móveis da vida esquecida.
A chave perdida
na água calma dos espelhos.
Falta-me o ar.
Ser humano é, talvez,
esta casa que caminha comigo.
Tento lembrar o segredo
das portas
que inventei de esquecer.
por Morlock

Comentários +

Comentários8

  • Pietro Guilherme Piazera

    Simplesmente magnifico!!!
    Obrigado pelo convite.

  • Morlock

    Verônica, achei teu mesclado muito bom, e com as estrofes dos colegas ficou magnífico, como disse o Pietro. E essa tua primeira estrofe, com tom existencialista, me lembrou Camus ou Sartre. Agradeço por ter me convidado.

    • Ayalah Verônica Berg

      Tá bom, Rodrigo... não precisa tentar me enrolar com agrados — tu sempre será o meu amorzinho.

    • Rogério

      Achei lindo!!!

    • Claudio Reis

      Inspirações vindas de um quarto, onde só as paredes podem saber das emoções de quem o habita.

      Grato pelo convite, no próximo participarei.

      Parabéns poetas e poetisas

    • CORASSIS

      Perdi o prazo para participar , ficou ótimo Ayalah , parabéns a todos participantes . Ficarei atento para participar no próximo.
      Abraços .

      • Ayalah Verônica Berg

        Vou tentar bolar uma ideia para um mesclado... em breve, obrigada pelo retorno.

      • Queiroz Francisco

        Parabéns pessoal, ficou excelente...
        Infelizmente não consegui participar.
        Uma abraço em todos

      • Mara

        Entre quatro paredes, o tempo parava,
        O desejo queimava em febre e calor.
        Nesse quarto do a gente se amava,
        Sem regras, sem medos, sem freio ou pudor.
        Tudo era permitido no fogo do instante,
        Onde a carne cedia ao pecado ardente
        Você era meu par, meu eterno amante,
        Num delírio profundo que envolvia a gente.
        Mas o feitiço quebra ao bater da hora,
        O mundo real volta a cobrar o seu preço.
        A porta se abre e você vai embora,
        Deixando o vazio no mesmo endereço.
        E a sua partida me rasga por dentro,
        Em um corte profundo
        Com a dor de mil vidros em meu sentimento.
        Desculpe por me atrasar.....
        Mas deixo aqui um pouco de mim

      • Lux tenebris

        Amiga, perdão. Faz tempo que não apareço por aqui. Como estás?

        • Ayalah Verônica Berg

          Oi, Lux, nunca estive melhor... hehe. Mentira! Estou surtando... hehe.
          É só ler os 3 poemas que escrevi nos últimos dias. Minha participação no mesclado Terapia Poética, e os 2 últimos poemas no meu perfil... que dá para sentir o gosto da loucura... mas tô bem tô bem. E tu? Como está?

          • Lux tenebris

            Oi, Ayalah. Confesso que li os três poemas e acho que realmente dá para sentir esse “gosto da loucura” entre os versos... hehe. Mas talvez seja justamente daí que nasçam algumas das poesias mais sinceras, não é? Às vezes, o que nos desorganiza por dentro acaba encontrando alguma ordem quando vira palavra.

            Eu estou bem também, seguindo por aqui, entre pensamentos, versos e algumas inquietações que insistem em pedir passagem. Acho que nós, \"poetisas\", nunca estamos completamente sãs quando temos um papel em branco pela frente... hehe.



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