"Faça um pedido, apague as velas."
Talvez seja só mais um ciclo a se cumprir,
dessas velhas manias que insistem em ressurgir.
Aquilo que um dia chamei de karma ou obra do destino,
hoje reconheço apenas como um caminho repetido e clandestino.
Voltei aos mesmos hábitos, quase sem perceber,
como quem conhece a queda antes mesmo de acontecer.
Mas há qualquer coisa em mim que começa a despertar,
uma parte que já pensou e relutou, e agora não aceita simplesmente retornar.
Meu córtex frontal, enfim, parece acordar,
enquanto o sentimento tenta outra vez me governar.
E aquilo que me aflige, que me faz adoecer,
começa a perder o nome que eu insistia em lhe conceder.
[ e assim me vi no meu velho e repetitivo hábito ]
Foram seis anos aprendendo a atribuir algum valor
ao que talvez tenha sido passagem, acidente ou ardor.
Se um dia fui musa, inspiração ou melodia,
hoje sou apenas alguém que se tornou insignificante e que atravessou aquela poesia.
E não digo isso para diminuir o que fui,
nem para negar a beleza de tudo que se construiu e existiu.
Houve coisas que foram imensas enquanto duraram,
mesmo quando, com o tempo, simplesmente terminaram.
Talvez eu tenha sido verso, refrão ou inspiração,
mas nenhuma dessas coisas me concede permanência no coração.
E aceitar isso talvez seja a parte mais difícil,
descobrir que posso ter sido importante e ainda assim ser dispensável e superável.
E talvez ter sido significado em determinado momento,
não seja garantia de eterna permanência no pensamento.
Fui parte de uma história, de um verso, de uma canção,
mas não se exige morada eterna dentro de um coração.
Não há ofensa nessa constatação, nem derrota a lamentar,
há somente a lucidez de finalmente trabalhar e parar.
Seis anos são tempo demais para continuar a procurar
um significado onde a vida já decidiu não colocar.
Então encerro o ciclo sem exigir explicação,
sem transformar lembrança em nova condenação.
Não preciso chamar de karma aquilo que escolhi repetir,
nem chamar de destino aquilo que ainda posso impedir.
Desta vez, não retorno ao lugar de onde saí,
não porque esqueci, mas porque finalmente compreendi.
Há finais que doem justamente por serem verdadeiros,
e há despedidas que libertam sem precisar de exageros.
Aceito minha insignificância diante do que passou,
aceito que nem tudo aquilo que fui permaneceu onde começou.
E talvez exista beleza nessa verdade que me atravessa,
um trágico fim também pode ser a forma mais bonita de uma promessa.
Seis anos depois, não resta nada a reivindicar,
nenhum verso alheio que eu precise voltar a procurar.
Coloco o ponto final onde tantas vezes deixei reticências,
e sigo, não por destino, mas por minhas próprias escolhas e consequências.
Que seja trágico.
Que seja lindo.
Que seja final.
E, pela primeira vez,
que não seja preciso voltar para descobrir
que terminou.
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Autor:
Ana Gonçalves (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 15 de setembro de 2026 22:41
- Categoria: Carta
- Visualizações: 3

Offline)
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