A corrida

GGSantos

Um dia acordei com esperança. O sol ainda não havia despertado. O frio no ponto de ônibus atravessava meu casaco e cortava minha pele.
Aquele dia cheguei cinco minutos atrasada, molhada pela chuva que caíra. Meu chefe chegou seco, em seu Alfa Romeo. E eu sempre me pergunto: "Quanto da minha vida tenho que vender para ele comprar um modelo mais novo?"
Cheguei às 21 horas. Minhas crianças estavam aflitas: "O que vamos comer, mamãe?" E o dia do pagamento ainda estava longe. Rezamos, bebemos água e fomos dormir, e pedi a Deus: "Dá-me forças."
Em mês de eleição, todos nos amam, seguram as crianças no colo e fazem a pergunta crucial: "O que você precisa?" E assim ganham as eleições.
Dão-nos água em conta-gotas enquanto estamos no fundo do poço, secos.
E eu reformulo a pergunta: "Quanto da minha vida eu já vendi?"
Não sei. Fiquei igual ao poço: seca.

  • Autor: GGSantos (Offline Offline)
  • Publicado: 14 de setembro de 2026 22:19
  • Comentário do autor sobre o poema: Escrevi esse texto poético na visão de uma mulher. Por que ? Porque acredito no fato que as mulheres sofrem muito no nosso país. E pra esse texto, na visão de uma mulher séria mais coerente e doloroso.
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 4
  • Usuários favoritos deste poema: Michel F.M.


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