Da Encenação da Actriz Rita Calçada Bastos

Ricardo Maria Louro



Em Vida Secreta de Coisa, a inteligência artificial torna-se lugar de confronto entre o bem e o mal, entre o homem e a sua criação, entre causa e consequência. Mas Rita recusa o discurso explicativo e escolhe o corpo como linguagem. Gestos, expressões, silêncios e movimentos constroem um diálogo inquietante entre corpo e alma, entre o humano e aquilo que o humano criou. Os intérpretes parecem comunicar através de uma gramática própria. Um movimento pode ser uma ordem, uma imobilidade uma revolta, um olhar uma memória. Há qualquer coisa de mecânico que se humaniza e qualquer coisa de humano que ameaça tornar-se máquina. Progressivamente, essa linguagem deixa de estar em harmonia consigo própria: o homem e a criatura deixam de se reconhecer e de falar a mesma língua. A mensagem chega, assim, menos pelas palavras do que pela presença física dos actores. E é aqui que se revela também a actriz dentro da encenadora. Rita Calçada Bastos sabe olhar o intérprete como matéria dramática e fazer com que aquilo que não é dito se torne visível. O corpo passa a ser texto, e o pensamento acontece diante dos nossos olhos.
Em Último Andamento, a surpresa nasce de outra transformação. Aquilo que inicialmente parece apenas uma confusão entre casal vai-se revelando como a construção e desconstrução de uma obra musical. O conflito transforma-se em ritmo, os corpos em partitura, os silêncios em pausas e as rupturas em notas de uma composição. Rita parece perguntar-nos: e se uma relação humana fosse também uma composição?! ...
Cada conflito torna-se uma nota, cada aproximação um intervalo, cada ruptura uma pausa e cada tentativa de reencontro uma variação sobre um tema que julgávamos conhecer. O teatro começa a escutar a música e a música começa a pensar teatralmente.
É uma das grandes virtudes da encenação: não ilustrar a ópera, mas pensar cenicamente com ela. Rita aproxima o modernismo teatral da tradição operática sem colocar um contra o outro. Pelo contrário, faz desse encontro uma fonte de criação. A tradição deixa de ser uma peça de museu e o moderno deixa de ser apenas uma ruptura. Entre ambos nasce um espaço mais ambíguo, livre e contemporâneo.
Há, nas duas obras, um fio comum: a recusa da evidência. Rita não fecha os significados. Deixa-os respirar. Trabalha naquele lugar raro em que uma imagem pode significar várias coisas ao mesmo tempo, em que um gesto é mais do que um gesto e em que o silêncio pode possuir mais dramaturgia do que uma página inteira de diálogo. Esse é talvez o seu fio dourado: a linha quase invisível que une o racional ao intuitivo, o moderno ao ancestral, a palavra ao corpo, a música ao teatro e o visível ao invisível. Rita confia no espectador. Não lhe explica tudo nem lhe retira o prazer da descoberta. Oferece-lhe pistas, imagens, movimentos, atmosferas e contradições para que cada um construa a sua própria leitura. É uma forma exigente de fazer teatro — e, justamente por isso, profundamente generosa.
Falar de Rita Calçada Bastos como encenadora é também reconhecer a actriz que existe no seu olhar sobre a cena. A experiência do corpo, da presença e da escuta atravessa a sua maneira de dirigir. Há nela uma atenção particular ao intérprete: ao modo como ocupa o espaço, ao instante anterior à palavra, à verdade escondida numa reacção e àquilo que o corpo revela quando a personagem já não consegue controlar o que sente.
Como directora de actores, parece não querer domesticar o intérprete, mas conduzi-lo até ao ponto em que ele próprio descobre algo que ainda não sabia possuir. E, como encenadora, reúne essas individualidades numa arquitectura maior. Unifica sem uniformizar.
Uma porta aberta para o futuro do teatro
Vida Secreta de Coisa e Último Andamento revelam uma Rita Calçada Bastos que não vê a ópera como uma forma encerrada, mas como matéria viva, capaz de dialogar com as inquietações do presente.
A inteligência artificial, o corpo, a identidade, a relação amorosa, o conflito e a criação musical passam pela sua encenação sem perder o sentido de maravilhamento. Rita não procura simplesmente modernizar a ópera. Procura descobrir onde a ópera ainda pode ir.
Entre o actor e a personagem.
Entre o homem e a máquina.
Entre o corpo e a alma.
Entre a palavra e o silêncio.
Entre a música e o movimento.
Entre a tradição e o futuro.
É nesse intervalo que a sua encenação encontra a sua força.
E talvez seja precisamente por isso que, quando o espectáculo termina, alguma coisa continua a acontecer dentro de nós. Porque uma grande encenação não é aquela que termina quando as luzes se apagam; é aquela que começa nesse momento.
Rita Calçada Bastos parece sabê-lo. E, ao fazê-lo, abre uma porta — não apenas para uma outra maneira de encenar a ópera, mas para uma possível linguagem futura do teatro.
Uma linguagem onde o mistério não é aquilo que falta explicar mas sim  aquilo que ainda temos para descobrir.
 
Bem-haja, querida Rita!
Brilhante trabalho, que lhe reconheço e enalteço não só como espectador, mas também como poeta, escritor, declamador e sensitivo.


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