Em um grande teatro há muito esquecido,
Resta o silêncio de uma vida passada,
Silêncio este que, traduzido em palavras, revela suas notas de poesia,
Escritas em versos que ecoam além de suas linhas.
Sentada bem ao fundo, em meio a tantas poltronas vazias,
Aguarda eternamente uma guitarrista,
Última de sua orquestra, alma que ainda brilha,
Em suas mãos, guarda sua esperança de vida.
Uma guitarra de mogno e ébano,
Trançada em delicadas linhas de prata,
Com adornos vermelhos sobre o mais belo azul-esmeralda,
Está eternamente ligada à sua alma, como a noite e o luar.
Juntas e aprisionadas, anseiam pelo vibrato se libertar.
De imediato, notou uma mudança no ar,
Ergueu os olhos e observou mais adiante.
O palco à sua frente, antes mergulhado em sombras e poeira, brilhava agora em tons ofuscantes,
E, atraída por sua luz, levantou-se e avançou naquele mesmo instante.
Posicionou-se à frente, deixou seus dedos a postos, suas cordas afinadas, respirou bem fundo, estava preparada.
Com sua guitarra, dedilhou impaciente pelas cordas alinhadas.
Começou a subir e descer em escalas alucinantes.
Seus sustenidos rasgavam o silêncio como lâminas cortantes.
Mas qual seria seu motivo e inspiração?
Um passado de silêncio e solidão.
Outra figura invisível e dissimulada
Jazia ali mesmo no interior daquela sala.
Percorria-lhe com gestos, em silenciosa curiosidade.
Ouvia seu silêncio, seus mais profundos pensamentos.
Era onipotente e onipresente, mas não era angelical, isso era evidente.
Ela sentiu a presença cada vez mais evidente.
Navegando entre as fileiras vazias, observando cada gesto, cada nota.
Mas sabia exatamente quem a figura era e já estava à sua espera.
Corajosa, de sangue valente, encarou-a de frente.
Iniciou seu confronto ali mesmo, em extrema melodia.
Frente ao abismo, libertou sua ira.
Seus dedos em uma dança atemporal se iniciavam
E em uma espiral musical se desvencilhavam.
Sua prosa em início de rimas se afirmava
E em vogais e consoantes se redobrava.
Alma alguma pairava ali, mas continuava a tocar segura de si.
Rodeada pelo vazio e pela solidão, somente suas emoções a mantinham no chão.
A esse ponto, já não era ninguém, mas foi além.
Fez do texto melodia e da entidade refém.
Sua voz, antes oprimida, subiu a alturas incessantes,
E, em reverência, o teatro a ecoava sob seu luminoso semblante.
Seus batimentos no peito agora eram esvoaçantes.
Tão intensa era sua ira e agonizada sua alma,
Que as cordas em suas mãos arrebentavam e se remendavam.
E se ousar mergulhar em suas consoantes,
Surfe em suas vogais, ou se afogue em seus graves sufocantes.
Continuava em vibrato, pois a presença permanecia.
E quanto mais tocava sua guitarra em rebeldia,
Cada vez mais a presença a analisava e sorria.
Sabia que o silêncio da cessação se aproximava; a ideia de tal terror a assustava.
Enquanto a guitarra entoava, estava salva.
Enquanto a figura misteriosa se entretinha, mantinha-se viva.
Do contrário, estaria aquém e não seria ninguém.
Então suplicou em alto e bom vigor para a silhueta que não deixava de analisar:
— Eu imploro, não me deixe desvanecer.
A entidade nada expressou, somente a observou.
Assentiu em lágrimas e escalas, recusou o limiar, pois o que ela mais temia era parar.
Sabia que nada era eterno e que até mesmo esse poema teria seu fim.
Em um ato de desespero, recorreu a mudar o próprio fim.
Organizou seus versos coesos em uma partitura primorosa.
Usaria da aparição para se aprender a sua memória.
E então começou ali mesmo o início de seu fim, recitou:
— Que esse último verso floresça além de mim.
Das pestanas aos trastes,
Do silêncio que legou-me a sociedade,
Estorvando todas as casas e desassossegando suas escalas,
A honestidade de minha melodia e de toda sua simplicidade.
Gritou bem alto enquanto sorriu alegremente.
Pelos bends galguei e ao vibrato entoei.
Em nome de minha liberdade, minhas amarras desatei.
Aos slides que fluem e com o tapping se molda.
Ninguém mais me segura — agora estou morta.
Mas, se ainda se lembrar de mim, saiba que esse poema nunca terá fim.
Chamas ardentes a envolviam de cima a baixo.
Fumaças e cinzas partiam de sua garganta.
Seu peito queimava como lava efervescente.
E de seus olhos escorriam lágrimas cintilantes, trágicas e atenuantes.
E, enquanto lentamente as chamas cessavam,
Da fumaça revelou-se sua silhueta, frágil e solitária,
Marcada pela incoerência de uma vida tão efêmera e vaga.
Sem mais forças para continuar, deitou-se ao chão,
Encostou seu corpo à madeira fria,
Partes lhe faltavam, não conseguia se lembrar.
Então, lentamente, se deixou levar,
Morreu, mas sua última nota continuou a ecoar,
Além do silêncio, além do tempo, além de seu próprio olhar.
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Autor:
Guilherme Rodrigues (
Offline) - Publicado: 7 de setembro de 2026 07:25
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 1
- Em coleções: Perdido sob as estrelas.

Offline)
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