ALMOÇO DE DOMINGO

Fábio Alves Leão

Ainda sinto o cheiro do domingo,

Do arroz fumegante e do feijão,

Da mesa comprida, do riso antigo,

Da família inteira em comunhão.

 

Havia conversa, havia abraço,

Havia esperança no olhar,

E eu, tão pequeno, entre tantos braços,

Nem imaginava o tempo a passar.

 

Minha mãe sorria na cozinha,

Meu pai contava alguma história,

E a casa, naquela manhã tão minha,

Guardava cada instante na memória.

 

Tinha panela cantando no fogão,

Prato passando de mão em mão,

E o mundo cabia naquela sala,

Entre o perfume do almoço e a fala.

 

Domingo era mais que um dia,

Era um pedaço do paraíso,

Era família, era companhia,

Era o som da casa cheio de riso.

 

Mas o tempo, senhor das partidas,

Não pede licença para levar;

Vai fechando portas e despedidas,

Vai ensinando a gente a lembrar.

 

Foram-se alguns para sempre,

Outros partiram sem se despedir,

E há quem ainda viva tão longe

Que parece impossível alcançar ou sentir.

 

Dos que se foram, ficaram retratos,

Algumas roupas, cartas, canções;

Ficaram silêncios, pequenos relatos,

E um punhado de recordações.

 

Dos amores, restaram promessas,

Beijos perdidos na contramão,

Paixões que morreram depressa

Deixando cinzas no coração.

 

Houve amores que foram eternos

Enquanto duraram, e foram tão bons...

Hoje são fantasmas ternos

Adormecidos em velhos sons.

 

E aquela paixão que incendiava

Hoje é apenas uma cicatriz;

O coração que um dia sonhava

Aprendeu a fingir que é feliz.

 

Agora, quando chega o domingo

E a tarde se espalha no chão,

Eu procuro aquele antigo abrigo

No fundo da minha recordação.

 

Mas a mesa já não é a mesma,

Há cadeiras vazias demais;

E cada lugar guarda um problema:

Alguém que não volta jamais.

 

Às vezes, fecho os olhos, sozinho

E quase consigo ouvir suas vozes;

O passado refaz seu caminho

E por segundos somos nós, todos nós.

 

Sinto o cheiro do alho na panela,

O café passando, o pão sobre a mesa;

E a infância, tão distante e bela,

Me visita vestida de tristeza.

 

Queria voltar só por um instante,

Sentar-se naquele velho lugar,

Abraçar quem partiu tão distante,

E dizer o que não pude falar.

 

Queria ouvir de novo aquela risada,

Ver o amor sentado ao meu lado,

Ter minha infância inteira reunida,

Antes que tudo tivesse acabado.

 

Mas a vida não devolve o passado,

Nem conserta o que o tempo desfez;

Deixa o coração meio quebrado

A a saudade crescendo outra vez.

 

Hoje, o que tenho é essa lembrança,

Esse domingo dentro de mim;

Um resto de amor, alguma esperança,

E uma solidão que parece sem fim.

 

Talvez saudade seja isso:

Amar aquilo que não pode voltar;

É sentir no peito um compromisso

Com quem o tempo resolveu levar.

 

E quando o domingo termina,

e a noite se deita sobre o chão,

Eu fico sozinho na cozinha,

Conversando baixinho com a solidão.

 

Sobre a mesa, um prato vazio.

Na janela, a sombra do entardecer.

E dentro do peito, um imenso vazio

De tudo aquilo que eu queria reviver.

 

Se existe um lugar onde o tempo não passa,

Onde ninguém precisa partir,

Talvez seja dentro da nossa memória,

Onde quem amamos continua a existir.

 

Por isso, quando a saudade aperta

E a solidão vem me visitar,

Eu volto àquela mesa ainda aberta,

Onde todos parecem me esperar.

 

E por um breve instante, enfim,

O passado floresce em meu olhar

O almoço de domingo volta para mim...

E eu volto a ser criança,

Antes de aprender

Que amar também é perder e lembrar.

 

  • Autor: Brendon Leão (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 6 de setembro de 2026 08:25
  • Categoria: Gótico
  • Visualizações: 3


Para poder comentar e avaliar este poema, deve estar registrado. Registrar aqui ou se você já está registrado, login aqui.