Ainda sinto o cheiro do domingo,
Do arroz fumegante e do feijão,
Da mesa comprida, do riso antigo,
Da família inteira em comunhão.
Havia conversa, havia abraço,
Havia esperança no olhar,
E eu, tão pequeno, entre tantos braços,
Nem imaginava o tempo a passar.
Minha mãe sorria na cozinha,
Meu pai contava alguma história,
E a casa, naquela manhã tão minha,
Guardava cada instante na memória.
Tinha panela cantando no fogão,
Prato passando de mão em mão,
E o mundo cabia naquela sala,
Entre o perfume do almoço e a fala.
Domingo era mais que um dia,
Era um pedaço do paraíso,
Era família, era companhia,
Era o som da casa cheio de riso.
Mas o tempo, senhor das partidas,
Não pede licença para levar;
Vai fechando portas e despedidas,
Vai ensinando a gente a lembrar.
Foram-se alguns para sempre,
Outros partiram sem se despedir,
E há quem ainda viva tão longe
Que parece impossível alcançar ou sentir.
Dos que se foram, ficaram retratos,
Algumas roupas, cartas, canções;
Ficaram silêncios, pequenos relatos,
E um punhado de recordações.
Dos amores, restaram promessas,
Beijos perdidos na contramão,
Paixões que morreram depressa
Deixando cinzas no coração.
Houve amores que foram eternos
Enquanto duraram, e foram tão bons...
Hoje são fantasmas ternos
Adormecidos em velhos sons.
E aquela paixão que incendiava
Hoje é apenas uma cicatriz;
O coração que um dia sonhava
Aprendeu a fingir que é feliz.
Agora, quando chega o domingo
E a tarde se espalha no chão,
Eu procuro aquele antigo abrigo
No fundo da minha recordação.
Mas a mesa já não é a mesma,
Há cadeiras vazias demais;
E cada lugar guarda um problema:
Alguém que não volta jamais.
Às vezes, fecho os olhos, sozinho
E quase consigo ouvir suas vozes;
O passado refaz seu caminho
E por segundos somos nós, todos nós.
Sinto o cheiro do alho na panela,
O café passando, o pão sobre a mesa;
E a infância, tão distante e bela,
Me visita vestida de tristeza.
Queria voltar só por um instante,
Sentar-se naquele velho lugar,
Abraçar quem partiu tão distante,
E dizer o que não pude falar.
Queria ouvir de novo aquela risada,
Ver o amor sentado ao meu lado,
Ter minha infância inteira reunida,
Antes que tudo tivesse acabado.
Mas a vida não devolve o passado,
Nem conserta o que o tempo desfez;
Deixa o coração meio quebrado
A a saudade crescendo outra vez.
Hoje, o que tenho é essa lembrança,
Esse domingo dentro de mim;
Um resto de amor, alguma esperança,
E uma solidão que parece sem fim.
Talvez saudade seja isso:
Amar aquilo que não pode voltar;
É sentir no peito um compromisso
Com quem o tempo resolveu levar.
E quando o domingo termina,
e a noite se deita sobre o chão,
Eu fico sozinho na cozinha,
Conversando baixinho com a solidão.
Sobre a mesa, um prato vazio.
Na janela, a sombra do entardecer.
E dentro do peito, um imenso vazio
De tudo aquilo que eu queria reviver.
Se existe um lugar onde o tempo não passa,
Onde ninguém precisa partir,
Talvez seja dentro da nossa memória,
Onde quem amamos continua a existir.
Por isso, quando a saudade aperta
E a solidão vem me visitar,
Eu volto àquela mesa ainda aberta,
Onde todos parecem me esperar.
E por um breve instante, enfim,
O passado floresce em meu olhar
O almoço de domingo volta para mim...
E eu volto a ser criança,
Antes de aprender
Que amar também é perder e lembrar.
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Autor:
Brendon Leão (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 6 de setembro de 2026 08:25
- Categoria: Gótico
- Visualizações: 3

Offline)
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