Quando O Céu Esqueceu De Chover

enitnatsnoC oãoJ

 

O céu amanheceu cinza.

 

Não daquele cinza bonito

que os poetas usam para falar de saudade.

 

Cinza de parede de hospital.

Cinza de fotografia esquecida numa gaveta.

Cinza de quem descobriu tarde demais

que certas manhãs já nascem culpadas.

 

Olhei para cima.

 

O céu não olhou de volta.

 

Talvez estivesse cansado de mim.

 

As árvores começaram a dançar.

 

Engraçado.

 

Sempre culpamos o vento

quando os galhos quebram.

 

Ninguém pergunta

por que a árvore estava ali.

 

Ninguém pergunta

quem plantou.

 

Ninguém pergunta

quem regou.

 

E ninguém gosta de admitir

que algumas tempestades

começam muito antes

das nuvens.

 

O vento aumentou.

 

Folhas atravessaram a rua

como pequenas cartas de despedida

que ninguém assinou.

 

Eu reconheci algumas.

 

Eram minhas.

 

Decisões antigas,

vestidas de folhas secas,

passando diante dos meus olhos

como se ainda tivessem alguma coisa

a me cobrar.

 

Talvez tivessem.

 

Talvez eu ainda devesse

um pedido de desculpas

a alguém que já não existia.

 

Então veio o trovão.

 

Não foi alto.

 

Foi íntimo.

 

Há trovões que não anunciam chuva.

 

Anunciam possibilidades.

 

Por um segundo,

o passado aconteceu outra vez.

 

No segundo seguinte,

aconteceu aquilo que nunca aconteceu.

 

E eu fiquei preso

entre os dois.

 

Que lugar miserável.

 

O passado tem a vantagem

de já ter acontecido.

 

O futuro tem a crueldade

de poder ter sido qualquer coisa.

 

Eu acendi um cigarro

para medir o tempo.

 

A fumaça subiu.

 

O céu continuou descendo.

 

Pensei que talvez Deus

também fumasse escondido

quando não soubesse o que fazer conosco.

 

Outro trovão.

 

Desta vez pensei nela.

 

Ou nele.

 

Ou em mim.

 

Já não sei.

 

Há pessoas que entram na nossa vida

como chuva:

 

primeiro molham a janela,

depois a casa inteira.

 

E quando partem,

deixam o cheiro de terra molhada

num lugar onde nunca houve jardim.

 

O céu estava quase preto.

 

Eu ainda esperava a chuva.

 

Esperava como quem espera perdão

sem ter certeza de que merece.

 

Esperava como quem espera uma ligação

de um telefone que já foi enterrado.

 

Esperava.

 

Porque às vezes esperar

é a única forma elegante

de não admitir que desistimos.

 

As árvores pararam.

 

O vento morreu.

 

O mundo ficou silencioso.

 

E naquele silêncio

eu finalmente entendi:

 

talvez a tempestade

nunca tivesse vindo.

 

Talvez ela estivesse indo.

 

Ou talvez...

 

talvez eu fosse a tempestade

e o céu estivesse apenas

tentando sobreviver a mim.

 

Levantei os olhos.

 

Uma gota caiu no meu rosto.

 

Depois outra.

 

Sorri.

 

Não sei se começou a chover.

 

Até hoje não sei

se aquela água veio do céu

 

ou de algum lugar

que eu passei a vida inteira

tentando não olhar.

 

enitnatsnoC oãoJ

  • Autor: enitnatsnoC oãoJ (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 4 de setembro de 2026 16:19
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