Não restará pedra sobre pedra.

Poesia Abandonada

Na ampulheta cega do tempo, a areia vai cair, E a vida perde a força, desaba sem sentido, Se a voz que hoje sopra não tentar esculpir Um recado ao futuro, um sopro de esquecido.

Nascemos no sobressalto, corremos para o fim, E erguer monumentos parece o dever supremo; Sem deixar uma nota, o mundo fica assim: Um palco sem roteiro, um barco sem o remo.

Então gravamos frases, poemas, catedrais, Lançamos garrafas num oceano escuro, Na esperança vaidosa de sermos imortais, De guiar os passos de quem vem no futuro.

Gritamos à prole: "Aprendam com o meu chão!" Desejamos que a carta atravesse o nevoeiro. Pois sem o legado, a dor é em vão, E o homem é só sombra em sol passageiro.

Mas o tempo é uma fera que devora a memória, E o sopro da terra apaga qualquer chama. No fim dos milênios, no ápice da história, Ruirá a palavra, o pergaminho e quem ama.

Guardem bem o aviso antes do grande fecho, Da carta que enviamos ao amanhã distante: Por mais que se tente salvar o próprio trecho, O nada devora o rei e o mendigo num instante.

E quando a última luz finalmente se fechar, A promessa do cosmos cumprirá sua vertigem: Nenhuma mensagem restará para contar, E não restará pedra sobre pedra.

  • Autor: Poesia Abandonada (Offline Offline)
  • Publicado: 1 de setembro de 2026 23:12
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 2
  • Usuários favoritos deste poema: Michel F.M.


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