O Senhor Carteiro

Aira Lirien

Sobe a montanha 

todos os dias, não por carta, 

mas por costume.

 

A bolsa pesa vazia igual pesa cheia.

De dia o sol o observa 

e à noite o caminho some.

 

De noite, só a lamparina sabe

onde o velho pisa.

Ele não entrega cartas, 

ele entrega os dias 

e também as saudades.

 

E quando não há mais pra 

quem entregar, acende a luz pequena

só pra não esquecer onde ainda 

está a própria casa.

 

A bolsa de couro já memorizou 

o formato das mãos, 

de tanto carregar o peso de 

palavras escritas.

 

As estradas já aprenderam 

pra onde ele vai, já decoraram 

o sapato que ele usa, 

o vento já sabe pra onde ele faz.

 

Aquele mundo já o 

conhece porque já tem sua marca.

Conhece o cheiro da 

pedra molhada 

antes da chuva chegar.

 

Conhece a hora que a 

vaca deita, e onde a cobra dorme.

O caminho sabe da sua dor no joelho e 

amacia a terra ali.

 

O vento não bate nele, ele o 

refresca, a lamparina não 

queima a mão dele, morna.

 

Ele e a montanha têm acordo 

antigo: eu te piso com respeito,

você me deixa passar.

  • Autor: Aira Lirien (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 1 de setembro de 2026 13:27
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 3


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