O Homem, o Cão, o Corvo e a Raposa

enitnatsnoC oãoJ

 

Havia um homem de passos cansados,

por ruas de barro, por dias quebrados.

Tinha nos olhos o fim de uma canção,

e nos bolsos, somente ferrugem e solidão.

 

Um cão o seguia, fiel companheiro,

magro, molhado, faminto e verdadeiro.

“Por que não amas?”, perguntou certa vez,

“Porque amar foi a coisa que a vida desfez.”

 

O cão baixou a cabeça, sem nada dizer,

pois há dores que um cão consegue compreender.

Sentou-se ao seu lado, sob chuva e frio,

enquanto o homem fumava, vazio e sombrio.

 

Então veio o corvo, pousando no telhado,

negro como o passado que nunca é enterrado.

“Lembro de ti quando ainda eras alguém;

tinhas sonhos nos olhos e esperança também.”

 

O homem respondeu com um riso sem cor:

“Sonhos são apenas sementes de dor.

Plantei muitos no peito, reguei com amor;

nasceram promessas, mas deram-me rancor.”

 

A raposa surgiu detrás da velha estação,

com um sorriso astuto e uma falsa compaixão.

“Meu caro, a vida é uma questão de saber

quando fingir que não dói para continuar a viver.”

 

O homem fitou-a e disse, enfim:

“Foi justamente esse truque que fizeram de mim.

Ensinaram-me a sorrir quando queria chorar,

a dizer ‘estou bem’ quando queria acabar.”

 

O corvo abriu as asas sobre o céu avermelhado:

“Então ainda sentes?” — perguntou assustado.

O homem ficou muito tempo a pensar:

“Não sei se ainda sinto… ou se aprendi a disfarçar.”

 

O cão levantou-se e tocou-lhe a mão,

como quem ainda acreditava naquela alma em vão.

A raposa sorriu: “Que tolice permanecer.”

E o corvo respondeu: “Talvez seja isto viver.”

 

O homem olhou para os três, sem saber o que fazer,

pois já não sabia odiar, amar ou esquecer.

Era um homem sem gosto, sem vinho, sem sal,

uma sombra aprendendo a chamar-se normal.

 

E quando a noite caiu sobre a estrada deserta,

o cão ficou perto, a raposa ficou alerta.

O corvo partiu levando a última recordação,

e o homem seguiu sozinho, sem nome, sem direcção.

 

Dizem que ainda caminha quando a madrugada vem,

sem procurar mal algum, sem procurar ninguém.

E se alguém lhe pergunta por que perdeu o sabor,

ele responde baixinho:

 

“Não nasci insípido.

A vida foi meu professor.”

 

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