O Espinho

Aira Lirien

 

 

Eu era pétala.  

Me entreguei inteira, sem dobra.  

Vim colorida, aberta, com cheiro de manhã. Me ofereci pra ficar na curva da mão dele como se eu coubesse ali pra sempre.

 

Ele me arrancou.  

Não foi com raiva, nem com cerimônia. Foi com pressa. Com a pressa de quem colhe flor pra levar no caminho pra casa de outra.

 

Eu vi.  

Vi as pétalas caindo devagar no chão, perdendo a cor no contato com o cimento virando lixo bonito.  

 

O que sobrou. A cicatriz escura do que um dia foi jardim.

 

Ninguém repara na cicatriz.  

Ninguém rega o que fere.  

 

Espinho não serve pra buquê,  

não dá novas pétalas, não perfuma a sala. Espinho só serve pra lembrar que ali já doeu.  

 

E eu aprendi a crescer

sem flor, dentro da própria ferida. Agora eu cresço diferente. Não subo. Desço e enrosco no peito como cipó velho, procuro água no fundo do peito onde só tem ausência.

 

Cada vez que ela fala o nome dele, eu aperto a terra com os dentes. Cada vez que ela finge que esqueceu, eu broto mais fundo, teimoso, como quem não sabe morrer.

 

Eu não sou saudade. Saudade é pétala: vai embora com o vento. Eu sou o que ficou quando até a saudade cansou e foi embora.  

 

Sou o amor que não morreu só porque ninguém se lembrou de regar.

 

Me chamam de exagero. Dizem que é drama, que é passado.

 

Mas ninguém sabe o peso exato de carregar no corpo o que já virou terra, de amar o que virou pó  e ainda assim continuar chamando de casa.

 

As pétalas foram embora cedo. Levaram o perfume, levaram a cor. E eu fiquei. Fiquei lembrando pro corpo toda noite que já fui flor.

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