E, afinal, quem mesmo que morreu?

Samantha West

Primeiro, tenho tentado entender quem morreu.

Todas essas antigas músicas, sabores e lugares

A quem tudo isso pertencia? 

Quem eu era, antes de morrer

Olhando pra trás, não consigo deixar de notar a característica mais comum das minhas experiências

Amor

Eu era amor, repleta de amor, sentindo e entregando

Sempre externando isto em forma de arte

Eu era arte, muito além do amor

Quando eu estava com raiva, triste, ansiosa

Tudo era arte e amar era arte também 

 

Hoje, o que é arte pra mim? 

Eu admiro, e me sinto incapaz de viver sem admirar, vários artistas

Desde cantores, compositores, dançarinos, escritores, pintores e desenhistas

E nessa lista, já não me incluo

Não que eu não me aprecie, mas já não sou artista

Percebo que essa é a Eu que morreu.

Uma morte muito pior daqueles artistas na minha lista que já não vivem

Uma morte sem legado, sem lembrança 

Destinada a inexistência

 

Referenciada por um dos meus artistas favoritos, Martha Graham, uma bailarina americana uma vez disse:

"Um dançarino morre duas vezes — uma quando para de dançar, e esta primeira é a morte mais dolorosa"

E como a dança era a forma de Martha de expressar sua arte, percebo a condição que ela expressava nessa frase, pois entendo como deve ter sido doloroso, de mais de uma forma, ficar presa num corpo onde suas articulações, cartilagens, músculos e ossos não conseguem expressar sua arte da forma o qual faziam tão livre e deslumbrante

Vendo desse jeito, a dor dela excede qualquer experiência que eu, com meus 23 anos, possa ter vivido, então passarei longe de comparações 

 

Mas as vezes me sinto como Martha Graham.

Presa em um corpo, uma mente que ja escreveu, desenhou e cantou coisas lindas, mas que hoje só pode apreciar a liberdade de um artista

E eu falo "lindas" como um elogio saudosista

Pois de fato, nunca vivi algo perto do meu auge potencial de artista, em qualquer linguagem que fosse

Quando eu era essa pessoa, algo sempre me puxava e me impedia de terminar uma música, um conjunto de poemas, uma melodia completa, um desenho

Eu não sabia o que era, mas hoje penso que talvez fosse o princípio da minha morte



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