A carne nua não move a engrenagem do peito,
move a fresta, a dobra, o interdito que nega o direito.
O homem não ama o fruto que tomba maduro no chão,
o homem adora a cerca, o espinho, essa febre da transgressão.
[como existem aqueles que amam o cortejo da solidão]
O proibido não é pecado, o proibido é exemplo de nossa indigência,
só desejamos com fúria aquilo que nos nega existência.
Projetamos no oco do outro uma imagem que nunca existiu,
um deus postiço simulado no barro de um peito vazio.
Chamamos de encontro o delírio de nos contemplar
no buraco daquele que nunca soubemos, de fato, escutar.
A conquista não passa de cerco, troféu de um ego faminto,
que devora o mistério do alvo e depois o devolve ao labirinto.
E o propício? O cômodo? O laço sem risco e sem dor?
Vira cálculo morno, comércio que finge ser flor.
A modernidade pesa as trocas na tábua fria do ganho,
[Já dizia Bauman sobre a Modernidade Líquida]
ninguém quer a desgraça do afeto, apenas evitar o desengano.
Mas sob o entulho da posse, da neurose e da encenação,
resta uma centelha teimosa que escapa à razão.
O amor não morreu na escassez, apenas se recusa a ser moeda,
ele é o salto cego do espírito no instante em que a máscara quebra.
Não arde naquilo que falta, nem no cálculo do que convém,
desperta no susto bendito de ver a nudez de alguém
e, sem querer possuir nem curar o que o outro padece,
permanecer ao lado no escuro enquanto a noite arrefece.
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Autor:
Ana Gonçalves (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 25 de agosto de 2026 15:36
- Categoria: Reflexão
- Visualizações: 5

Offline)
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