por muito tempo
eu achei mais fácil dizer
que a vida tinha sido injusta comigo.
era mais confortável
colocar a culpa na infância,
nas ausências,
nas coisas que eu não entendia quando era criança,
nas pessoas que foram embora
e nas que ficaram sem saber ficar.
cresci carregando algumas faltas
como quem aprende a andar
com uma pedra dentro do peito.
e talvez por isso
eu tenha aprendido cedo demais
a esconder o que doía
e tarde demais
a admitir quando era eu quem machucava.
eu errei.
não foram apenas erros pequenos,
daqueles que o tempo apaga
e a gente esquece.
algumas escolhas minhas
tiveram nome,
rosto
e consequências.
e essa talvez seja
a parte mais difícil de crescer...
descobrir que você pode ter sido ferido
e ainda assim
ter ferido alguém.
que sua dor explica algumas coisas,
mas não absolve todas.
eu não quero mais usar
o meu passado como desculpa
para continuar repetindo
o homem que eu fui.
quero olhar para ele.
olhar sem ódio,
mas também sem passar a mão na cabeça.
dizer...eu sei por que você fez algumas coisas.
E depois completar...
mas você precisava ter feito diferente...
talvez arrependimento seja isso.
não é desejar voltar no tempo.
é lembrar de certas versões de si
e desejar que elas tivessem aprendido antes
o que hoje você entende tarde demais.
às vezes eu sinto saudade
do menino que eu fui
antes de descobrir
que adultos também quebram promessas,
que algumas pessoas vão embora,
que amar não impede ninguém de machucar ninguém
e que crescer
não significa necessariamente
saber o que fazer.
eu queria ter protegido aquele menino.
mas não posso.
o que posso fazer
é não deixar que ele cresça em vão.
por isso eu continuo.
mesmo com vergonha de algumas páginas,
mesmo sabendo que existem pessoas
que talvez nunca me perdoem,
mesmo carregando dentro de mim
a consciência de que certas coisas
não podem ser desfeitas.
eu continuo.
não porque eu seja um homem bom.
mas porque ainda estou tentando ser.
e talvez essa seja
a única coisa realmente bonita
que restou depois de tantos erros:
eu ainda quero acertar.
não para apagar o que fiz.
não para convencer ninguém
de que eu mudei.
mas porque um dia
eu quero olhar para trás
e reconhecer aquele homem
sem precisar ter vergonha
do homem que me tornei.
eu não sou vítima de tudo
que me aconteceu.
também fui responsável
por algumas das minhas ruínas.
e aceitar isso
doeu mais do que culpar o mundo.
mas foi também
o primeiro passo para reconstruir.
hoje eu não quero uma vida perfeita.
quero apenas uma vida
em que minhas escolhas
pareçam cada vez menos
com aquilo que um dia me feriu.
quero aprender a amar
sem destruir.
edir perdão
sem exigir esquecimento.
ficar
quando for preciso ficar.
ir embora
quando for preciso ir.
e, principalmente,
não abandonar a pessoa
que eu ainda posso ser.
porque talvez eu não consiga
mudar o meu passado.
mas ainda tenho uma coisa
que o passado não conseguiu me tirar
a chance
de não repetir a mesma história.
Por Freddie Seixas
-
Autor:
Freddie Seixas (Pseudónimo (
Offline) - Publicado: 23 de agosto de 2026 21:33
- Categoria: Carta
- Visualizações: 4
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