Razão dos cegos

Anna Gonçalves

Na praça onde o conceito é um rascunho mudo,

alguém acende a fumaça de algum verbo febril.

O povo não quer a geometria, sabedoria ou alguma regra  do mundo,

quer o estandarte que fira o céu de anil.

 

Nenhum Sócrates ergueu um império de giz

sem que o sangue da crença banhasse o altar.

A ideia é uma preposição que dorme na raiz,

o grito é a onda que força o mar a marchar.

 

Se a verdade pura é um astro sem calor

que a terra fria recusa em seu giro,

para que gastar o cinzel do pensamento e a dor

na meia forma que não é nem brasa nem suspiro?

 

Melhor que a ciência que não comove ninguém!

Seja a arte inteira, que sangra ao nascer,

um verso que valha por tudo o que o homem tem

quando decide o que quer crer e perecer.

 

E quando a tese finalmente  se cala e o raciocínio expira,

sobra apenas o acorde que a alma adivinha,

o som que exprime e cria a harmonia para uma melodia, 

a música, essa soberana e cega mentira

onde no mais profundo e subsolo da vida,

em silêncio conforta e se alinha...

  • Autor: Ana Gonçalves (Pseudónimo (Offline Offline)
  • Publicado: 21 de agosto de 2026 00:35
  • Categoria: Reflexão
  • Visualizações: 2


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