VENTOS DE SUDESTE

VEGA LIRA

O vento passou por aqui. Ventos de sudeste.

Perguntei se traria notícias, e ele, suavemente, como que preocupado com a resposta, me disse que não. Logo, como quem tem pressa, perguntou-me friamente o motivo de tamanha teimosia.

Como brisa suave, contei-lhe todos os motivos e compromissos assumidos. Ele se agitou, desordenadamente, tentando compreender — ou talvez aceitar — o que acabara de ouvir.

Silenciei e observei.

Logo, ele veio forte, como um tufão, e sussurrou:

— Me parece que você não leu as letras miúdas do combinado.

Eu, logo, como vento de domingo, lhe disse que realmente aquilo havia passado despercebido. Mas acredito que, no momento de firmar tal compromisso, a minha condição era justamente a incondicionalidade. E isto explica a profissão a ser exercida na Terra.

Talvez a lição seja justamente esta: atentar-se às letras miúdas.

Mas talvez seja por isso que sempre me considerei um aprendiz.

Ele agora, como quem queria mostrar toda a sua fúria e inconformação, retrucou:

— Considera ficar eternamente me aguardando, esperando notícias de algo que talvez sequer se lembre de qualquer compromisso firmado? Ou que talvez nem queira lembrar?

Logo fechei os olhos e pensei, como se o vento não existisse.

E ele, em um gesto de incompreensão, fez com que as folhas sequer se movessem, como se pudesse ouvir os ventos dos meus pensamentos — ou tentasse realizar tal façanha.

No presente instante, com o coração ardendo, abri os olhos e, por consideração, respondi-lhe que o fato de estar sentado aos pés daquele arbusto não queria dizer espera.

Queria dizer viver a presente lição que se fazia necessária.

Nunca é sobre o outro.

Sempre foi sobre a nossa capacidade de sermos fiéis ao nosso caminho.

E este tem validade apenas para quem o percorre, possivelmente não entenderia. No momento certo, assim como você, ventos de sudeste, irei seguir como a brisa mais silenciosa e sutil.

Mas, para isso, aguardo as condições climáticas certas.

Sem ventania egóica.

Sentindo o aquecimento próximo ao coração, em um gesto de carinho, ele passeou pela região, como quem assoprava, tentando levar consigo todo o fervor do viver.

Percebendo seu gesto e sua preocupação, disse-lhe em tom sereno:

— Não se preocupe comigo. Tem um detalhe que você se esqueceu, e vou lhe lembrar. Eu estive em uma pequena local chamada escola do amor, a melhor da nossa galáxia.

Preciso te contar algo.

Mas chega mais próximo, para eu te confessar...

E, sussurrando ao vento, eu disse:

— Eu estou tentando praticar o máximo que aprendo em cada dia de aprendizado.

E eu sei que você não vai entender.

A Terra ainda não comporta esse entendimento.

O vento logo balançou as folhas, derrubando algumas delas, e me disse:

— Por acaso, não acha isso sábio? Saiba que circulo em todas as escolas do planeta e te vejo lá, sim. Mas confesso que nunca paro para ouvir.

Porém, como conselho de uma ventania carregada de sabedoria, digo-lhe:

— Ame onde estiver e com quem estiver.

Logo eu sorri em agradecimento para o invisível, e ele me cobriu com a mais singela e caridosa brisa.

Nela, parecia haver o poder de levar toda a dor e todo o ardor do coração.

E fiquei ali, naqueles momentos raros, podendo sentir a paz de uma brisa docemente soprada.

Mas, quando percebi que ele estava de partida, logo gritei:

— Antes de partir, leve uma notícia aos mares!

Ele, curiosamente, voltou velozmente e perguntou:

— O que devo levar, meu caro amigo?

E, dessa vez, não joguei palavras ao vento.

Num gesto silencioso de reflexão, entreguei a ele tais pensamentos que ficaram em segredo entre nós dois.

Parecia possível enxergar o brilho que ele ganhou ao carregar aquela mensagem com ele.

E, sem qualquer controle, uma lágrima escorreu, como se também quisesse acompanhar os ventos sentido as maresias de sudeste.

Ele estava em partida.

Mas, antes, gritou alegre, pedindo desculpas pelo cisco nos olhos...

E eu segui sorrindo, independentemente dos ciscos que os ventos me trazem.

Afinal, como o vento, tudo passa.

Mas o amor...

O verdadeiro amor...

É como os ventos das tempestades de Saturno:

eterno e incondicional.

 

VEGA LIRA

  • Autor: VEGA LIRA (Offline Offline)
  • Publicado: 19 de agosto de 2026 22:02
  • Categoria: Não classificado
  • Visualizações: 2


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